segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944


Foto de Irene Hansen.
Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944.
Témoignage de Ferdinand De Grève.
" j'habitais au block 58. Au matin, je reçus l'ordre d'accompagner deux SS, chiens en laisse, pour abattre des petits sapins. Aux casernes des SS, les soldats allaient fêter Noël. Je fus conduit vers le bois et j'avais en main une hachette. Eux, désignaient les sapins qu'il fallait couper. Au début de l'après-midi, un kommando vint avec une charrette à bras pour effectuer le chargement. J' avais dû rassembler les sapins et les mettre en tas. Une idée me vint: je dissimulai un tout petit sapin dans une " jupe" du pantalon et puis un deuxième dans l'autre. Par la ceinture, je les avais fixés avec une corde. Ils me collaient à la cuisse entre la chemise et le pantalon. Heureusement, pas de contrôle sévère à la Tour. Je fus " lâché" dans le camp. Réjoui de mon exploit, j'en fis part au chef de block et ensemble, avec d'autres camarades, nous cherchâmes de petits cadeaux : un sucre, un bout de chocolat, une cigarette, un bonbon etc...Vers 22 heures, nos sapins étaient garnis. Une tombola fut tirée pendant que des histoires et des chansonnettes en wallon, en flamand et en bruxellois animaient la soirée. Un groupe de catholiques, suivi par d'autres, entonnèrent le " Minuit Chrétien ". Nous avions ainsi fêté Noël 44, à la manière et avec les moyens des internés"
Extrait et photo tirés du livre " Les belges à Buchenwald".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

August Sander

«Os nazis censuraram Sander porque os seus " rostos da época " não correspondiam à estética nazi.»

Roland Barthes / A Câmara Clara







quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ainda! a noite de cristal.

Robert F. Wagner, senador norte-americano

Após o episódio da Noite de Cristal, o senador norte-americano Robert Wagner propôs que 20 mil crianças judias alemãs com menos de 14 anos pudessem emigrar para os EUA, escapando à Alemanha nazi - mas a sua proposta foi derrotada numa comissão do Congresso, sem chegar sequer a ir a plenário. Na verdade, 70% dos americanos opunham-se a esta ideia, recordou o New York Times, num outro aniversário deste episódio, citando o historiador David Wyman. Algumas crianças acabaram por sair da Alemanha - o Kindertransport levou 10 mil para o Reino Unido. Por vezes, as crianças (idade máxima 17 anos) eram as únicas sobreviventes da sua família.
Mas se a Alemanha nazi se queria ver livre do máximo possível de judeus, os restantes países não os queriam receber. O Presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, tinha convocado para Junho de 1938 uma conferência sobre o problema do número crescente de judeus que fugia da perseguição nazi e procurava outros países para se refugiar, Durante uma semana, em Évian, França, delegados de 32 países e 39 organizações privadas trocaram desculpas para não receber refugiados - a conferência foi um fracasso, embora se tenha criado o Comité Intergovernamental para os Refugiados, para acompanhar a situação.
Tal como hoje, vivia-se um período de depressão económica, e a possibilidade de entrada de milhares de emigrantes judeus configurava uma ameaça de concorrência pelos empregos que já faltavam. A estes motivos económicos juntavam-se os preconceitos raciais enraizados relativamente aos judeus - que não existiam apenas na Alemanha.
Apenas a República Dominicana aceitou receber mais refugiados, lê-se no sitedo Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Em 1939, Londres restringiu as quotas de imigração para a Palestina, então sob mandato britânico - mas o resultado foi que aumentou a imigração clandestina de refugiados judeus. Os britânicos interceptam-nos e colocam-nos em campos - tal como acontece hoje aos imigrantes que tentam entrar, de barco, pela costa Sul europeia.
retirado daqui

Felix Nussbaum

Felix Nussbaum, “Camp Synagogue at Saint Cyprien”, 1941

9 de Novembro de 1939, a noite de cristal, ou o princípio do holocausto


TOTENBUCH

Com horror

haveríamos de encontrar o círculo negro da história,
o arquivo inabitável, irrespirável.

É amoral o gesto de quem regista,
assinala óbitos, assepsias, extermínios.

Um forno não é um forno
e um chuveiro não é mais um chuveiro.

O funcionário que regista tem
por dedos lâminas rombas.

Desenha com método. Anota com desvelo.



Luís Quintais, Depois da Música (Tinta da China, 2013), p. 28.

domingo, 6 de novembro de 2016

Leonard Cohen

Paul Celan

Czernowitz, cidade natal de Paul Celan

NEGROS
como a ferida da memória,
se agitam os olhos para ti
no país da coroa, em luz
mordido pelos dentes-coração,
que é ainda nosso leito:

por esta cova tu tens de vir -
tu vens.

No sentido-
-sémen
enche-te o mar de estrelas, bem no fundo, para sempre.

O atribuir nomes conhece um fim,
sobre ti lanço o meu destino.

Não Sabemos mesmo O Que Importa, Trad. Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água, 2014

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Nicholas Winton, a discrição de um herói

Aristides de Sousa Mendes, desobediente exemplar

Aristides de Sousa Mendes e família

Mais sobre Aristides de Sousa Mendes em (disponível na biblioteca da escola):



Ou aqui:

Henry David Thoreau

As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais?

A Desobediência Civil, Trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2015, p. 27

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eduardo Galeano

«Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.»


Maria Filomena Molder

« (...) Lembro-me da descrição muito breve, num texto de Primo Levi, de uma criança que tinha nascido num campo de concentração e tinha ficado sem mãe. E ninguém a ensinou a falar. Aos três anos andava como um zombie, era uma figura do horror.»

foto de Pat Brassington


em entrevista concedida ao «Expresso» em 06.06.2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

«O comboio do Luxemburgo»

Vivemos tempos conturbados e assistimos diariamente ao drama dos refugiados sírios e de todos os que, tentando fugir da guerra e da morte, procuram desesperadamente chegar à Europa. Infelizmente nada disto é novo e, ciclicamente, quando lutas pelo poder, questões ditas religiosas ou étnicas e interesses económicos se sobrepõem aos interesses da Humanidade, a guerra alastra, e todos os que se vêem envolvidos por esse turbilhão de morte e destruição querem escapar dele a qualquer custo.
Foi assim, na década de 1990, com os refugiados bósnios e foi assim com a perseguição aos arménios, já na segunda década do século XX, século dos refugiados, como assinalou Hannah Arendt, ao referir-se aos judeus e a outros perseguidos pela Alemanha nazi, situação que se intensificou exponencialmente após a invasão da Europa pelos alemães, entre Maio e Junho de 1940.
Portugal - apesar de viver então em ditadura - tentou manter durante quase todo o conflito mundial uma estrita neutralidade. Lisboa, de onde partiam o Clipper para Nova Iorque e navios para quase todo o mundo, tornou-se no destino mais desejado para quem fugia aos horrores da guerra e do nazismo. O governo português, à semelhança do que era feito então noutros países - e à semelhança do que hoje se continua a fazer em toda a Europa - tentou controlar ao máximo a entrada de refugiados em Portugal, enviando para os seus consulados várias circulares que restringiam a emissão de vistos no país, e estes eram apenas de trânsito provisório e nunca de exílio definitivo.
Mas, nem sempre as coisas correm como se espera e a actuação pontual de vários diplomatas e, sobretudo, a desobediência de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus - que ignorou as ordens recebidas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou seja, de Salazar -, levaram a que nas últimas semanas de Junho de 1940 chegassem diariamente às fronteiras portuguesas milhares de pessoas com vistos para Portugal. Alertado pelas autoridades inglesas e espanholas para este estado de coisas e temendo não conseguir lidar com uma situação caótica para a qual não estava preparado, o governo português tomou várias providências, de que resultaram o encerramento da fronteira espanhola de Irun, bem como provisoriamente da portuguesa de Vilar Formoso, e a anulação dos vistos emitidos por Sousa Mendes.
A vinda de comboios, organizados com o apoio da Gestapo, provenientes do Luxemburgo com refugiados judeus, entre Agosto e Outubro desse ano de 1940, veio depois a criar sobressaltos entre a PVDE e o governo português, já que muitos dos passageiros vinham indocumentados ou não possuíam vistos válidos para embarcar em Portugal com destino a outras paragens. No entanto, o esforço das organizações judaicas a actuar em Lisboa acabou por conseguir fazê-los entrar no país.
Contudo, em Novembro de 1940, um terceiro comboio proveniente do Luxemburgo trazendo a bordo cerca de 300 judeus e escoltado por membros armados da Gestapo não teve a mesma sorte. Impedidos de pisar solo português (...) estas pessoas ficaram cerca de dez dias encerradas nas carruagens, sob um frio intenso e alimentando-se do que a população pobre da zona lhes conseguia oferecer: pão, café e às vezes sopa.
Ao fim de dez dias deste verdadeiro calvário e já com negociações para os instalar provisoriamente no Luso, o governo português acabou por lhes negar a entrada. De regresso a França, estiveram ainda vários dias no comboio até os alemães decidirem interná-los em Mouserolles, perto de Baiona, num antigo campo de internamento para republicanos espanhóis durante a Guerra Civil.
Libertados meses depois, muitos conseguiram partir para outras paragens. Outros acabaram por ficar na França de Vichy. Destes, poucos sobreviveram aos campos de extermínio.

Do Preâmbulo de Margarida de Magalhães Ramalho a O comboio do Luxemburgo 

Vilar Formoso Fronteira da Paz

disponível na biblioteca da escola

mais aqui

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Wislawa Szymborska

(...) o que motivou Szymborska terá sido o desejo de pensar, nos poemas, o que não está nas imagens, visto que elas são mudas. Isso é evidente em grade parte dos textos e, especialmente em dois, que abordam a questão da História. Um deles é «A primeira fotografia de Hitler», um poema espantoso no qual o tom chocarreiro e bem humorado das referências descritivas ao «bebezinho Adolfo Hitler (...) sublinha, por contraste irónico, a monstruosidade da personagem e da sua acção assassina e brutal.

Luís Filipe Parrado e «Descrever este voo e não acrescentar a última frase», Cão Celeste, nº 4, Novembro, 2013


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Paul Celan

ZURIQUE, NO HOTEL A CEGONHA

Para a Nelly Sachs

Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.

Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a 
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.

Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na
sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -

Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:

Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo
o que
importa.




Não Sabemos mesmo O Que Importa, Trad.
Gilda Lopes Encarnação, Relógio D' Água, 2014


«O Comboio do Luxemburgo»



Brevemente na Biblioteca da Escola
Ver mais aqui

domingo, 2 de outubro de 2016

Judith Herzberg

JERUSALÉM II
Aqui é como se tudo tivesse algo a dizer.
A sombra do eucalipto contra o muro branco
rutila como um código, um telegrama,
ou como as sombras de chamas sucessivas,
de um fogo distante mas persistente.
Se esta casa um dia voltar a ser arrasada
quem lá mora estará cansado de mais
para voltar a pôr pedra sobre pedra.

O que resta do dia, Trad. Ana Maria Carvalho, Cavalo de Ferro, 2008, p. 129

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Liviu Beris

Liviu Beris
«Liviu Beris, sobrevivente do Holocausto na Roménia, passou anos a tentar esquecer o que passou, mas agora luta contra o negacionismo da Shoah no seu país, que foi aliado da Alemanha nazi na II Guerra Mundial.»

Continuar a ler aqui

domingo, 7 de agosto de 2016

Ana Cristina Leonardo

" (...) O Papa a caminhar pelo campo encenando uma solidão grave , rodeado de flashes , cabos , fotógrafos , e guarda -costas subtraídos com ciência ao enquadramento , não se ajusta . Auschwitz não é um cenário. Por enquanto , não é um cenário . As fotografias podem ser de bom gosto - um homem só , de vestes brancas a arrastar pelo chão rosto fechado e cabeça baixa - , mas há momentos em que o bom gosto se torna uma obscenidade. E , assim como o bebé que morreu no Mediterrâneo não era um Nenuco , Auschwitz não é um estúdio de Hollywood. Estamos doentes. Primo Levi soube disso antes de nós . "
Ana Cristina Leonardo / Expresso , 6 de Agosto 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Daniel Blaufuks, «Sob Céus Estranhos» (2007)

João Luís Barreto Guimarães

João Luís Barreto Guimarães
A preto e branco

«Quanto vale a história no mercado da poesia?»
São imagens que se esbatem na memória
desse dia (soldados a preto e branco irrompendo
pelo comboio ordenando a saída
bradando em alemão) nós
em fila indiana cruzando a pé a fronteira
nossos nomes alinhados na escura
noite de
nenhures. «Quanto vale uma memória no
mercado da poesia?» Na fronteira para Viena
havia que trocar de comboio (ninguém
em Praga alertara para essoutra
composição). O fumo subia em fuligem
da negra locomotiva arrancando um calafrio ao
imo de um
medo profundo. «Quanto vale uma imagem
no mercado da poesia?»
Soldados a preto e branco.
Nossos nomes alinhados.
O fumo subindo
subindo.

João Luís Barreto Guimarães, você está aqui, Quetzal, 2012, p. 21


domingo, 31 de julho de 2016

Primo Levi: «Procurava-te nas estrelas»

Procurava-te nas estrelas
quando em criança as interrogava.
Perguntei por ti às montanhas,
mas só me deram em poucas ocasiões
solidão e breve paz. 
Porque faltavas, nas longas noites
cismei no disparate insensato
de que o mundo era um erro de Deus,
eu um erro do mundo.
E quando, diante da morte,
gritei que não com todas as fibras,
que ainda não terminara,
que tinha ainda muito a fazer,
foi por te ter à minha frente,
tu comigo ao lado, tal como hoje sucede,
um homem uma mulher sob o sol.
Voltei porque tu existias.
Primo Levi
(tradução de Vasco Gato)
Primo Levi (1919-1987)

The Spielberg Jewish Film Archive - Theodor Herzl - Father of the Jewish State

Retirado de:http://notintheheavens.blogspot.pt/

Vitebsk: uma pátria para Marc Chagall?

Apesar de Marc Chagall ter passado quase toda a sua vida em terra francesa, uma fuga ao nazismo impôs-lhe um intervalo americano de seis anos, Vitebsk, cidadezinha, na Rússia, que o viu nascer, nunca o abandonou, perfilando-se como linha segura entre o pintor e o judaísmo. Um útero espiritual, refúgio onde Chagall encontrava casa para as suas memórias.

Marc Chagall, «Sobre Vitebsk», c. 1914

Neste quadro podemos observar a catedral de Vitebsk, do século XVII. À sua volta, aproximadamente, seiscentas casas pertencentes às famílias mais abastadas da cidade. Poucas delas pertenciam a judeus. Estes, contrariamente ao protótipo do judeu abastado, habitavam os bairros pobres, em humildes choupanas, agrupadas em torno de angulosas vielas.
Marc Chagall, «A Casa cinzenta em Vitebsk», c. 1917

Nessas vielas encontrava-se o armazém do pai de Chagall, Zahar Segal, que mudará o nome para "Chagal". Marc acrescentar-lhe-á mais um "l" para facilitar a pronúncia francesa.
Marc Chagall, « Amantes sobre a cidade (Vitebsk)», 1918
Marc Chagall, «Praça do Mercado, Vitebsk», 1917

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Chansons Yiddish - Tendress et Rage - A Kalte Nakht

Yiddish: Iídiche é uma língua germânica, com cerca de três milhões de falantes, principalmente os judeus asquenazitas, no E.U.A., Israel, Rússia, Ucrânia e outros países. O nome do iídiche é provavelmente uma versão abreviada do ייִדיש - טייַטש (yidish taytsh-), que significa "alemão" judaica.Ver mais aqui

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Federico García Lorca

CEMITÉRIO JUDAICO

As alegres febres fugiram às amarras dos barcos
e o judeu empurrou com o pudor gelado do interior das alfaces.
Os meninos de Cristo dormiam
e a água era uma pomba
e a madeira era uma garça
e o chumbo era um colibri
e ainda as vivas prisões de fogo
estavam consoladas pelo salto do gafanhoto.

Os meninos de Cristo vogavam e os judeus enchiam os muros
com um só coração de pomba
pelo qual todos queriam escapar.
As meninas de Cristo cantavam e as judias olhavam a morte
com um só olho de faisão,
vidrado pela angústia de um milhão de paisagens.

Os médicos põem no níquel suas tesouras e luvas de borracha
quando os cadáveres sentem nos pés
a terrível claridade de outra lua enterrada.
Pequenas dores ilesas abeiram-se dos hospitais
e os mortos vão despindo um trajo de sangue em cada dia.

As arquitectas de geada,
as liras e gemidos que se escapam das folhas diminutas
no Outono, molhando as últimas vertentes,
apagavam-se no negro dos chapéus altos.

A erva celeste e só da qual o orvalho foge com medo
e as brancas entradas de mármore que conduzem ao ar duro
mostravam seu silêncio quebrado pelas pegadas adormecidas dos sapatos.

O judeu empurrou a grade
mas o judeu não era um porto
e as barcas de neve de súbito juntaram-se
nas escadinhas do seu coração.
As barcas de neve que espreitam
um homem de água que as afogue.
As barcas dos cemitérios
que às vezes deixam cegos os visitantes.

Os meninos de Cristo dormiam
e o judeu ocupou sua liteira.
Três mil judeus choravam no medo das galerias
porque reuniam entre todos a custo meia pomba,
porque um tinha a roda de um relógio
e outro uma polaina com lagartas falantes
e outro uma chuva nocturna carregada de cadeias
e outra a unha de um rouxinol que estava vivo
e porque a meia pomba gemia
derramando um sangue que não era o seu.

As alegres febres bailavam pelas cúpulas humedecidas
e a lua copiava em seu mármore
nomes velhos e fitas estragadas.
Chegou a gente que come por trás das rígidas colunas
e os asnos de brancos dentes
com os especialistas das articulações.
Verdes girassóis tremiam
nos páramos do crepúsculo
e o cemitério inteiro era uma queixa
de bocas de cartão e trapo seco.

Já os meninos de Cristo adormeciam
quando o judeu, apertando os olhos,
cortou suas mãos em silêncio
ao escutar os primeiros gemidos.

Federico García Lorca, Antologia Poética, Org. e trad. de José Bento, Relógio D' Água, 1993, pp.313-315

sábado, 18 de junho de 2016

«Chanson pour oublier Dachau» de Louis Aragon

Louis Aragon
« Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs
Il n’y aura pas à courir les pieds nus dans la neige
Il ne faudra pas se tenir les poings sur les hanches
jusqu’au matin
Ni marquer le pas le genou plié devant un
gymnasiarque dément
Les femmes de quatre-vingt-trois ans
les cardiaques ceux qui justement
Ont la fièvre ou des douleurs articulaires
ou Je ne sais pas moi les tuberculeux
N’écouteront pas les pas dans l’ombre qui
s’approchent
Regardant leurs doigts déjà qui s’en vont en fumée
Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs

Ton corps
Ton corps n’est plus le chien qui rôde et qui ramasse
Dans l’ordure ce qui peut lui faire un repas
Ton corps n’est plus le chien qui saute sous le fouet
Ton corps n’est plus cette dérive aux eaux d’Europe
Ton corps n’est plus cette stagnation cette rancoeur
Ton corps n’est plus la promiscuité des autres
N’est plus sa propre puanteur
Homme ou femme tu dors dans des linges lavés
Quand tes yeux sont fermés quelles sont les images
Qui repassent au fond de leur obscur écrin
Quelle chasse est ouverte et quel monstre marin
Fuit devant les harpons d’un souvenir sauvage
Quand tes yeux sont fermés revois-tu revoit-on
Mourir aurait été si doux à l’instant même
Dans l’épouvante où l’équilibre est stratagème
Le cadavre debout dans l’ombre du wagon
Quand tes yeux sont fermés quel charançon les
ronge
Quand tes yeux sont fermés les loups font-ils le beau
Quand tes yeux sont fermés ainsi que des tombeaux
Sur des morts sans suaire en l’absence des songes

Tes yeux
Homme ou femme retour d’enfer
Familiers d’autres crépuscules
Le goût de soufre aux lèvres gâtant le pain frais
Les réflexes démesurés à la quiétude villageoise de
la vie
Comparant tout sans le vouloir à la torture
Déshabitués de tout
Hommes et femmes inhabiles à ce semblant de bonheur revenu
Les mains timides aux têtes d’enfants
Le cœur étonné de battre

Leurs yeux
Derrière leurs yeux pourtant cette histoire
Cette conscience de l’abîme
Et l’abîme
Où c’est trop d’une fois pour l’homme être tombé
Il y a dans ce monde nouveau tant de gens
Pour qui plus jamais ne sera naturelle la douceur
Il y a dans ce monde ancien tant et tant de gens
Pour qui toute douceur est désormais étrange
Il y a dans ce monde ancien et nouveau tant de gens
Que leurs propres enfants ne pourront pas
comprendre
Oh vous qui passez
Ne réveillez pas cette nuit les dormeurs»


«Chanson pour oublier Dachau» na íntegra aqui

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Obediência vs. Adesão

Hannah Arendt
«As descobertas muito recentes que se referem a um instinto inato de dominação e a um instinto de agressão inato no animal humano foram antecedidas por teses filosóficas muito semelhantes. Segundo John Stuart Mill, "a primeira lição de civilização [é] a da obediência", e Mill fala dos "dois estados das inclinações... um, o desejo de exercer o poder sobre os outros; outro ... a aversão a sofrer o exercício do poder sobre si próprio". Se nos ficássemos nas nossas próprias experiências sobre estas questões, saberíamos que o instinto de submissão, o desejo ardente de obedecer e de ser comandado por um homem forte, é pelo menos tão importante na psicologia humana como a vontade de poder, e, politicamente, talvez mais relevante. O velho adágio: "Quem sabe mandar, sabe obedecer", que, numa ou noutra versão, todos os séculos e todas as nações conheceram, talvez indique uma verdade psicológica: a saber, que a vontade de poder e a vontade de submissão estão ligadas uma à outra. "A pronta submissão à tirania", para citarmos de novo Mill, está muito longe de ter sempre como causa a "passividade extrema". Inversamente, uma relutância muito forte perante a obediência é muitas vezes acompanhada por uma relutância igualmente forte em comandar e dominar. Historicamente falando, a antiga instituição da economia da escravatura seria inexplicável nos termos da psicologia de Mill. O seu propósito explícito era libertar os cidadãos do fardo dos assuntos domésticos e permitir-lhes participar na vida pública da comunidade, na qual todos eram iguais; se fosse verdade que nada existe de mais gratificante do que comandar e dominar os outros, o dono da casa nunca teria saído dos seus domínios.
Todavia, existe uma outra tradição e um outro vocabulário não menos antigos nem menos consagrados pelo tempo. Quando a cidade-estado ateniense chamava à sua constituição uma isonomia, ou quando os romanos falavam da civitas como sendo a sua forma de governo, pensavam numa conceção do poder e da lei cuja essência não assentava na relação de comando-obediência, do mesmo modo que não identificavam o poder com a dominação, nem a lei com o comando. Foi para estes exemplos que os homens das revoluções do século XVIII se voltaram, pesquisando os arquivos da Antiguidade e constituindo uma forma de governo, uma república, na qual o primado da lei, assente no poder, poria fim à dominação do homem sobre o homem, concebida por eles como um «governo para escravos». Também eles, infelizmente, continuaram a falar de obediência - obediência às leis em vez de obediência aos homens; mas o que entendiam pelo termo era a adesão às leis às quais os cidadãos tivessem dado o seu consentimento. A adesão nunca é inquestionável, e no que se refere à sua garantia, esta não coincide com a "obediência inquestionável" que um ato de violência pode impor - esse tipo de obediência com que o criminoso pode contar quando me rouba a carteira tendo uma faca por arma, ou assalta um banco com uma arma de fogo na mão. É a adesão do povo que confere poder às instituições de um país, e esta adesão não é mais do que a continuação do consentimento que foi de início a origem das leis. Sob as condições de um governo representativo, considera-se que o povo comanda aqueles que o governam.» (pp. 45-46)



Hannah Arendt, Sobre a Violência, Relógio D' Água, 2014
(em breve na Biblioteca da Escola)

«Le chant des partisans», Interpretes: Les Stentors

sábado, 7 de maio de 2016

A iconoclastia de Helmut Herzfeld (1891-1968)


Helmut Herzfeld
Helmut Herzfeld estudou na Escola de Artes e Ofícios de Munique e é considerado, juntamente com George Grosz, um dos pioneiros da fotomontagem.
Entre 1917 e 1918 tomou várias decisões que marcariam decisivamente o curso da sua vida. Face à crescente anglofobia, que parecia estender-se por toda a Alemanha, decidiu adoptar um pseudónimo "britanizado", John Heartfield; filiou-se no Partido Comunista; tornou-se membro activo do dadaísmo.
Com a subida dos nazis ao poder, tornou-se num alvo a abater. Em Abril de 1933, fugiu pela janela quando os membros das SS lhe assaltaram a casa. Atravessando a pé os Sudetas, instalou-se na Checoslóváquia, mas perante a iminência da ocupação nazi, voltou a fugir, cinco anos passados, para Inglaterra.
Eis algumas das suas obras:
Sangue e ferro

E, no entanto, o mundo move-se
Hitler, o Super-homem, come ouro e cospe lixo
O rosto do Fascismo (Mussolini)
O Verdugo e a Justiça

Nunca mais!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Grácia Nasi

Contrariamente aos Reis Católicos que cumpriram o estipulado, D. Manuel não manteve a sua promessa de deixar sair de Portugal os judeus que o quisessem. A sua decisão, provavelmente já anterior à assinatura do decreto de expulsão, era outra: mantê-los no reino e aos seus «cabedais», não como judeus, mas sim como cristãos. Esperaria D. Manuel uma aceitação voluntária e massiva da conversão por parte dos judeus? Se assim era, enganou-se. Mas nada deteria o rei na sua decisão: numa sexta-feira, a 19 de Março de 1497, muito antes de findar o prazo para a saída, estipulado para Outubro, foi dada ordem de baptismo compulsivo de todas as crianças de quatro a catorze anos no domingo seguinte, dia de Páscoa judaica. Seguindo a táctica de atingir os pais através dos filhos, estes seriam retirados aos seus progenitores para serem educados na fé cristã.
As crianças foram assim arrancadas aos pais em verdadeiros cenários de horror: «Os pais, levados ao desespero, vagavam como dementes, as mães resistiam como leoas. Muitos preferiam matar os filhos com as próprias mãos; sufocavam-nos no último abraço ou atiravam-nos em poços ou rios, suicidando-se em seguida.» Condoídos, muitos cristãos escondiam crianças judias para poupar os pais a tal sofrimento. «Os próprios cristãos», escreve um autor anónimo, «movendo-os a piedade, e em face dos bramidos e choros que os tristes pais e amorosas mães faziam por aqueles pedaços das suas entranhas que, à força, viam arrancar deles sem esperança de mais poder lograr, escondiam e salvavam as crianças». Fernando Coutinho, líder do partido clerical que no Conselho Real se opusera à expulsão, e mais tarde bispo de Silves escreverá uns anos depois: « Vi com os meus próprios olhos como muitos foram arrastados pelos cabelos à pia baptismal, como um pai, com a cabeça encoberta, sob dores e lamentações, acompanhou o seu filho e, de joelhos, clamou ao Todo-Poderoso que fosse testemunha de pai e filho, unidos como professos da lei mosaica, desejarem morrer como mártires do judaísmo. Vi actos ainda mais pavorosos, verdadeiramente incríveis, que lhes foram infligidos.»
Mas o terror das conversões forçadas ainda não acabara. Com a aproximação da data limite para a saída, em Outubro de 1497, três portos, Lisboa, Porto e Algarve foram designados para o embarque. Mas no último momento o rei mudou de opinião, restringindo-o a Lisboa. Cerca de vinte mil judeus juntaram-se então na cidade, sendo conduzidos ao palácio dos Estatus, no Rossio, onde antes de serem alvo de um baptismo colectivo foram sujeitos a todo o tipo de pressões e ameaças. Abraão Saba, médico, que já fora expulso de Castela em 1492 e aquel levaram dois filhos, conta que foram mantidos, nos Estatus, sem comer nem beber durante quatro dias, e que os que conseguiram resistir foram arrastados «pelas barbas e cabelos» até às igrejas, enquanto outros se suicidavam atirando-se das janelas. (pp. 28-30)

Esther Mucznik, Grácia Nasi - A Judia Portuguesa do Século XVI Que Desafiou O Seu Próprio Destino,A Esfera dos Livros, 2010
(brevemente na Biblioteca da Escola)

«A Escolha de Sofia»

Sugerido aqui


Avrom Reisen

Avrom Reisen
Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)
Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.
Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.
Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.
Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.
Avrom Reisen
Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס— forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.
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