segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"O Mundo em Que Vivi", Ilse Losa

«O Mundo em Que Vivi (1ª ed. 1949) de Ilse Losa é um livro extraordinário de sobriedade. Breves episódios dão o retrato de uma criança judia, Rose, que passou parte da sua infância com os avós, e que com a chegada de Hitler ao poder acaba por deixar a Alemanha.
Ilse Lieblich Losa (Melle-Buer, 20 de março de 1913 — Porto, 6 de janeiro de 2006) abandonou a Alemanha em 1930 com a mãe e os seus irmãos, Ernest e Fritz. Em Inglaterra teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Chegou a Portugal em 1934. Fixou-se no Porto e adquiriu a nacionalidade portuguesa.
Sobre O Mundo em Que Vivi escreveu Agustina Bessa.Luis: "Há livros que com o tempo se vão destilando com as bebidas espirituosas. Deixam de ter a leveza temporal e só fica a lágrima e o perfume (...) "»  retirado de https://www.facebook.com/josediasdesouza77?fref=ts



"O drama do Holocausto" também vai aos Óscares (e é premiado na categoria de "Melhor Filme Estrangeiro")

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Acerca de Terezín

Por Kathleen Gomes

(…) Na história do Holocausto, Terezín é um caso à parte, por mais do que uma razão: foi ‘vendido’ pelos nazis em 1942 como uma comunidade-modelo para a elite judaica, oferecida pelo Fuhrer, e, inicialmente, os judeus foram para lá de livre vontade; era um campo de transição e não de extermínio. Mas para pessoas como o cineasta Claude Lanzmam, autor do monumental Shoah (e que recentemente dedicou um filme a Terezín), é o expoente máximo da perversidade e da crueldade do Terceiro Reich porque a mentira camuflou o crime nazi.       
Em 1944, a Cruz Vermelha Internacional fez uma visita de inspecção a Terezín, o que motivara, meses antes, uma “acção de embelezamento da cidade” decretada pelas SS: a densidade populacional foi aliviada, plantaram-se flores, pintaram-se as fachadas das casas, cafés e lojas foram recuperados, abriu-se um banco e um centro comunitário com auditório, biblioteca e sinagoga. O relatório final da Cruz Vermelha foi tão positiva que a organização desistiu de inspeccionar outros campos nazis.



Iin “Ípsilon” revista do Público de 17/12/2014

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Etty Hillesum

O campo inteiro está sob o signo da peça. Não há fatos-macacos para os que trabalham no exterior, mas na revista haverá um «ballet de fatos-macacos» e, por isso, trabalhou-se dia e noite no fabrico de peças dessas, com mangas de balão. As tábuas da Sinagoga de Assen foram serradas para fazer o palco para o bailado. Um carpinteiro exclamou: «Que diria Deus se soubesse que a Sua Sinagoga seria usada com tal propósito?» É incrível, não é, a Sinagoga de Deus de Assen. Oh, Maria, Maria – na noite do último transporte, as pessoas trabalharam o dia todo para o espectáculo. Tudo aqui é de uma loucura e tristeza indescritíveis e tragicómicas. (pp. 232-233)
Para muitos de nós, uma vida inteira não será suficiente para superar o facto de termos permitido que os nossos idosos e doentes partissem em primeiro lugar. É uma política conhecida baseada no «instinto de autopreservação». O pai perguntou a um enfermeiro do último transporte: «Como é possível deixarem partir pessoas que se encontram internadas, às portas da morte? Com certeza que é contra a ética médica». Ao que o enfermeiro respondeu com ar grave: «O hospital entrega um cadáver para poder manter aqui um vivo». Não tina a mínima intenção de brincar, estava perfeitamente sério. (p. 234)
Deixámos o campo a cantar, o pai e a mãe firmes e calmos, tal como o Mischa. (p. 238)
Cartas 1941-1943, Trad. Ana Leonor Duarte Patrícia Couto, Assírio & Alvim, 2009