quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944
Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944.
Témoignage de Ferdinand De Grève.
" j'habitais au block 58. Au matin, je reçus l'ordre d'accompagner deux SS, chiens en laisse, pour abattre des petits sapins. Aux casernes des SS, les soldats allaient fêter Noël. Je fus conduit vers le bois et j'avais en main une hachette. Eux, désignaient les sapins qu'il fallait couper. Au début de l'après-midi, un kommando vint avec une charrette à bras pour effectuer le chargement. J' avais dû rassembler les sapins et les mettre en tas. Une idée me vint: je dissimulai un tout petit sapin dans une " jupe" du pantalon et puis un deuxième dans l'autre. Par la ceinture, je les avais fixés avec une corde. Ils me collaient à la cuisse entre la chemise et le pantalon. Heureusement, pas de contrôle sévère à la Tour. Je fus " lâché" dans le camp. Réjoui de mon exploit, j'en fis part au chef de block et ensemble, avec d'autres camarades, nous cherchâmes de petits cadeaux : un sucre, un bout de chocolat, une cigarette, un bonbon etc...Vers 22 heures, nos sapins étaient garnis. Une tombola fut tirée pendant que des histoires et des chansonnettes en wallon, en flamand et en bruxellois animaient la soirée. Un groupe de catholiques, suivi par d'autres, entonnèrent le " Minuit Chrétien ". Nous avions ainsi fêté Noël 44, à la manière et avec les moyens des internés"
Extrait et photo tirés du livre " Les belges à Buchenwald".
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Natal,
resistência
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
August Sander
«Os nazis censuraram Sander porque os seus " rostos da época " não correspondiam à estética nazi.»
Roland Barthes / A Câmara Clara
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Ainda! a noite de cristal.
Robert F. Wagner, senador norte-americano |
Após o episódio da Noite de Cristal, o senador norte-americano Robert Wagner propôs que 20 mil crianças judias alemãs com menos de 14 anos pudessem emigrar para os EUA, escapando à Alemanha nazi - mas a sua proposta foi derrotada numa comissão do Congresso, sem chegar sequer a ir a plenário. Na verdade, 70% dos americanos opunham-se a esta ideia, recordou o New York Times, num outro aniversário deste episódio, citando o historiador David Wyman. Algumas crianças acabaram por sair da Alemanha - o Kindertransport levou 10 mil para o Reino Unido. Por vezes, as crianças (idade máxima 17 anos) eram as únicas sobreviventes da sua família.
Mas se a Alemanha nazi se queria ver livre do máximo possível de judeus, os restantes países não os queriam receber. O Presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, tinha convocado para Junho de 1938 uma conferência sobre o problema do número crescente de judeus que fugia da perseguição nazi e procurava outros países para se refugiar, Durante uma semana, em Évian, França, delegados de 32 países e 39 organizações privadas trocaram desculpas para não receber refugiados - a conferência foi um fracasso, embora se tenha criado o Comité Intergovernamental para os Refugiados, para acompanhar a situação.
Tal como hoje, vivia-se um período de depressão económica, e a possibilidade de entrada de milhares de emigrantes judeus configurava uma ameaça de concorrência pelos empregos que já faltavam. A estes motivos económicos juntavam-se os preconceitos raciais enraizados relativamente aos judeus - que não existiam apenas na Alemanha.
Apenas a República Dominicana aceitou receber mais refugiados, lê-se no sitedo Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Em 1939, Londres restringiu as quotas de imigração para a Palestina, então sob mandato britânico - mas o resultado foi que aumentou a imigração clandestina de refugiados judeus. Os britânicos interceptam-nos e colocam-nos em campos - tal como acontece hoje aos imigrantes que tentam entrar, de barco, pela costa Sul europeia.
retirado daqui
Felix Nussbaum
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Felix Nussbaum
9 de Novembro de 1939, a noite de cristal, ou o princípio do holocausto
TOTENBUCH
Com horror
haveríamos de encontrar o círculo negro da história,
o arquivo inabitável, irrespirável.
É amoral o gesto de quem regista,
assinala óbitos, assepsias, extermínios.
Um forno não é um forno
e um chuveiro não é mais um chuveiro.
O funcionário que regista tem
por dedos lâminas rombas.
Desenha com método. Anota com desvelo.
Luís Quintais, Depois da Música (Tinta da China, 2013), p. 28.
domingo, 6 de novembro de 2016
Paul Celan
Czernowitz, cidade natal de Paul Celan |
NEGROS
como a ferida da memória,
se agitam os olhos para ti
no país da coroa, em luz
mordido pelos dentes-coração,
que é ainda nosso leito:
por esta cova tu tens de vir -
tu vens.
No sentido-
-sémen
enche-te o mar de estrelas, bem no fundo, para sempre.
O atribuir nomes conhece um fim,
sobre ti lanço o meu destino.
Não Sabemos mesmo O Que Importa, Trad. Gilda Lopes Encarnação, Relógio D'Água, 2014
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Aristides de Sousa Mendes, desobediente exemplar
Aristides de Sousa Mendes e família |
Mais sobre Aristides de Sousa Mendes em (disponível na biblioteca da escola):
Ou aqui:
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Henry David Thoreau
As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais?
A Desobediência Civil, Trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2015, p. 27
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quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Eduardo Galeano
«Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.»
Maria Filomena Molder
« (...) Lembro-me da descrição muito breve, num texto de Primo Levi, de uma criança que tinha nascido num campo de concentração e tinha ficado sem mãe. E ninguém a ensinou a falar. Aos três anos andava como um zombie, era uma figura do horror.»
foto de Pat Brassington |
em entrevista concedida ao «Expresso» em 06.06.2016
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
«O comboio do Luxemburgo»
Vivemos tempos conturbados e assistimos diariamente ao drama dos refugiados sírios e de todos os que, tentando fugir da guerra e da morte, procuram desesperadamente chegar à Europa. Infelizmente nada disto é novo e, ciclicamente, quando lutas pelo poder, questões ditas religiosas ou étnicas e interesses económicos se sobrepõem aos interesses da Humanidade, a guerra alastra, e todos os que se vêem envolvidos por esse turbilhão de morte e destruição querem escapar dele a qualquer custo.
Foi assim, na década de 1990, com os refugiados bósnios e foi assim com a perseguição aos arménios, já na segunda década do século XX, século dos refugiados, como assinalou Hannah Arendt, ao referir-se aos judeus e a outros perseguidos pela Alemanha nazi, situação que se intensificou exponencialmente após a invasão da Europa pelos alemães, entre Maio e Junho de 1940.
Portugal - apesar de viver então em ditadura - tentou manter durante quase todo o conflito mundial uma estrita neutralidade. Lisboa, de onde partiam o Clipper para Nova Iorque e navios para quase todo o mundo, tornou-se no destino mais desejado para quem fugia aos horrores da guerra e do nazismo. O governo português, à semelhança do que era feito então noutros países - e à semelhança do que hoje se continua a fazer em toda a Europa - tentou controlar ao máximo a entrada de refugiados em Portugal, enviando para os seus consulados várias circulares que restringiam a emissão de vistos no país, e estes eram apenas de trânsito provisório e nunca de exílio definitivo.
Mas, nem sempre as coisas correm como se espera e a actuação pontual de vários diplomatas e, sobretudo, a desobediência de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus - que ignorou as ordens recebidas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou seja, de Salazar -, levaram a que nas últimas semanas de Junho de 1940 chegassem diariamente às fronteiras portuguesas milhares de pessoas com vistos para Portugal. Alertado pelas autoridades inglesas e espanholas para este estado de coisas e temendo não conseguir lidar com uma situação caótica para a qual não estava preparado, o governo português tomou várias providências, de que resultaram o encerramento da fronteira espanhola de Irun, bem como provisoriamente da portuguesa de Vilar Formoso, e a anulação dos vistos emitidos por Sousa Mendes.
A vinda de comboios, organizados com o apoio da Gestapo, provenientes do Luxemburgo com refugiados judeus, entre Agosto e Outubro desse ano de 1940, veio depois a criar sobressaltos entre a PVDE e o governo português, já que muitos dos passageiros vinham indocumentados ou não possuíam vistos válidos para embarcar em Portugal com destino a outras paragens. No entanto, o esforço das organizações judaicas a actuar em Lisboa acabou por conseguir fazê-los entrar no país.
Contudo, em Novembro de 1940, um terceiro comboio proveniente do Luxemburgo trazendo a bordo cerca de 300 judeus e escoltado por membros armados da Gestapo não teve a mesma sorte. Impedidos de pisar solo português (...) estas pessoas ficaram cerca de dez dias encerradas nas carruagens, sob um frio intenso e alimentando-se do que a população pobre da zona lhes conseguia oferecer: pão, café e às vezes sopa.
Ao fim de dez dias deste verdadeiro calvário e já com negociações para os instalar provisoriamente no Luso, o governo português acabou por lhes negar a entrada. De regresso a França, estiveram ainda vários dias no comboio até os alemães decidirem interná-los em Mouserolles, perto de Baiona, num antigo campo de internamento para republicanos espanhóis durante a Guerra Civil.
Libertados meses depois, muitos conseguiram partir para outras paragens. Outros acabaram por ficar na França de Vichy. Destes, poucos sobreviveram aos campos de extermínio.
Foi assim, na década de 1990, com os refugiados bósnios e foi assim com a perseguição aos arménios, já na segunda década do século XX, século dos refugiados, como assinalou Hannah Arendt, ao referir-se aos judeus e a outros perseguidos pela Alemanha nazi, situação que se intensificou exponencialmente após a invasão da Europa pelos alemães, entre Maio e Junho de 1940.
Portugal - apesar de viver então em ditadura - tentou manter durante quase todo o conflito mundial uma estrita neutralidade. Lisboa, de onde partiam o Clipper para Nova Iorque e navios para quase todo o mundo, tornou-se no destino mais desejado para quem fugia aos horrores da guerra e do nazismo. O governo português, à semelhança do que era feito então noutros países - e à semelhança do que hoje se continua a fazer em toda a Europa - tentou controlar ao máximo a entrada de refugiados em Portugal, enviando para os seus consulados várias circulares que restringiam a emissão de vistos no país, e estes eram apenas de trânsito provisório e nunca de exílio definitivo.
Mas, nem sempre as coisas correm como se espera e a actuação pontual de vários diplomatas e, sobretudo, a desobediência de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus - que ignorou as ordens recebidas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou seja, de Salazar -, levaram a que nas últimas semanas de Junho de 1940 chegassem diariamente às fronteiras portuguesas milhares de pessoas com vistos para Portugal. Alertado pelas autoridades inglesas e espanholas para este estado de coisas e temendo não conseguir lidar com uma situação caótica para a qual não estava preparado, o governo português tomou várias providências, de que resultaram o encerramento da fronteira espanhola de Irun, bem como provisoriamente da portuguesa de Vilar Formoso, e a anulação dos vistos emitidos por Sousa Mendes.
A vinda de comboios, organizados com o apoio da Gestapo, provenientes do Luxemburgo com refugiados judeus, entre Agosto e Outubro desse ano de 1940, veio depois a criar sobressaltos entre a PVDE e o governo português, já que muitos dos passageiros vinham indocumentados ou não possuíam vistos válidos para embarcar em Portugal com destino a outras paragens. No entanto, o esforço das organizações judaicas a actuar em Lisboa acabou por conseguir fazê-los entrar no país.
Contudo, em Novembro de 1940, um terceiro comboio proveniente do Luxemburgo trazendo a bordo cerca de 300 judeus e escoltado por membros armados da Gestapo não teve a mesma sorte. Impedidos de pisar solo português (...) estas pessoas ficaram cerca de dez dias encerradas nas carruagens, sob um frio intenso e alimentando-se do que a população pobre da zona lhes conseguia oferecer: pão, café e às vezes sopa.
Ao fim de dez dias deste verdadeiro calvário e já com negociações para os instalar provisoriamente no Luso, o governo português acabou por lhes negar a entrada. De regresso a França, estiveram ainda vários dias no comboio até os alemães decidirem interná-los em Mouserolles, perto de Baiona, num antigo campo de internamento para republicanos espanhóis durante a Guerra Civil.
Libertados meses depois, muitos conseguiram partir para outras paragens. Outros acabaram por ficar na França de Vichy. Destes, poucos sobreviveram aos campos de extermínio.
Do Preâmbulo de Margarida de Magalhães Ramalho a O comboio do Luxemburgo
Vilar Formoso Fronteira da Paz
disponível na biblioteca da escola
mais aqui
|
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Wislawa Szymborska
(...) o que motivou Szymborska terá sido o desejo de pensar, nos poemas, o que não está nas imagens, visto que elas são mudas. Isso é evidente em grade parte dos textos e, especialmente em dois, que abordam a questão da História. Um deles é «A primeira fotografia de Hitler», um poema espantoso no qual o tom chocarreiro e bem humorado das referências descritivas ao «bebezinho Adolfo Hitler (...) sublinha, por contraste irónico, a monstruosidade da personagem e da sua acção assassina e brutal.
Luís Filipe Parrado e «Descrever este voo e não acrescentar a última frase», Cão Celeste, nº 4, Novembro, 2013
Luís Filipe Parrado e «Descrever este voo e não acrescentar a última frase», Cão Celeste, nº 4, Novembro, 2013
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Ligações escandalosas
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Sonia Wieder-Atherton / Chants Juifs / Prière
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Paul Celan
ZURIQUE, NO HOTEL A CEGONHA
Para a Nelly Sachs
Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.
Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.
Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na
sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -
Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:
Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo
o que
importa.
«O Comboio do Luxemburgo»
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«O Dever da Memória»,
as histórias da História
domingo, 2 de outubro de 2016
Judith Herzberg
JERUSALÉM II
Aqui é como se tudo tivesse algo a dizer.
A sombra do eucalipto contra o muro branco
rutila como um código, um telegrama,
ou como as sombras de chamas sucessivas,
de um fogo distante mas persistente.
A sombra do eucalipto contra o muro branco
rutila como um código, um telegrama,
ou como as sombras de chamas sucessivas,
de um fogo distante mas persistente.
Se esta casa um dia voltar a ser arrasada
quem lá mora estará cansado de mais
para voltar a pôr pedra sobre pedra.
quem lá mora estará cansado de mais
para voltar a pôr pedra sobre pedra.
O que resta do dia, Trad. Ana Maria Carvalho, Cavalo de Ferro, 2008, p. 129
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Liviu Beris
Liviu Beris |
Continuar a ler aqui
domingo, 7 de agosto de 2016
Ana Cristina Leonardo
" (...) O Papa a caminhar pelo campo encenando uma solidão grave , rodeado de flashes , cabos , fotógrafos , e guarda -costas subtraídos com ciência ao enquadramento , não se ajusta . Auschwitz não é um cenário. Por enquanto , não é um cenário . As fotografias podem ser de bom gosto - um homem só , de vestes brancas a arrastar pelo chão rosto fechado e cabeça baixa - , mas há momentos em que o bom gosto se torna uma obscenidade. E , assim como o bebé que morreu no Mediterrâneo não era um Nenuco , Auschwitz não é um estúdio de Hollywood. Estamos doentes. Primo Levi soube disso antes de nós . "
Ana Cristina Leonardo / Expresso , 6 de Agosto 2016
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«O Dever da Memória»,
consciência moral sagitada
sábado, 6 de agosto de 2016
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Leonard Cohen - Story of Isaac
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
João Luís Barreto Guimarães
João Luís Barreto Guimarães |
«Quanto vale a história no mercado da poesia?»
São imagens que se esbatem na memória
desse dia (soldados a preto e branco irrompendo
pelo comboio ordenando a saída
bradando em alemão) nós
em fila indiana cruzando a pé a fronteira
nossos nomes alinhados na escura
noite de
nenhures. «Quanto vale uma memória no
mercado da poesia?» Na fronteira para Viena
havia que trocar de comboio (ninguém
em Praga alertara para essoutra
composição). O fumo subia em fuligem
da negra locomotiva arrancando um calafrio ao
imo de um
medo profundo. «Quanto vale uma imagem
no mercado da poesia?»
Soldados a preto e branco.
Nossos nomes alinhados.
O fumo subindo
subindo.
João Luís Barreto Guimarães, você está aqui, Quetzal, 2012, p. 21
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Primo Levi ...
domingo, 31 de julho de 2016
Primo Levi: «Procurava-te nas estrelas»
Procurava-te nas estrelas
quando em criança as interrogava.
Perguntei por ti às montanhas,
mas só me deram em poucas ocasiões
solidão e breve paz.
Porque faltavas, nas longas noites
cismei no disparate insensato
de que o mundo era um erro de Deus,
eu um erro do mundo.
E quando, diante da morte,
gritei que não com todas as fibras,
que ainda não terminara,
que tinha ainda muito a fazer,
foi por te ter à minha frente,
tu comigo ao lado, tal como hoje sucede,
um homem uma mulher sob o sol.
Voltei porque tu existias.
quando em criança as interrogava.
Perguntei por ti às montanhas,
mas só me deram em poucas ocasiões
solidão e breve paz.
Porque faltavas, nas longas noites
cismei no disparate insensato
de que o mundo era um erro de Deus,
eu um erro do mundo.
E quando, diante da morte,
gritei que não com todas as fibras,
que ainda não terminara,
que tinha ainda muito a fazer,
foi por te ter à minha frente,
tu comigo ao lado, tal como hoje sucede,
um homem uma mulher sob o sol.
Voltei porque tu existias.
The Spielberg Jewish Film Archive - Theodor Herzl - Father of the Jewish State
Retirado de:http://notintheheavens.blogspot.pt/
Vitebsk: uma pátria para Marc Chagall?
Apesar de Marc Chagall ter passado quase toda a sua vida em terra francesa, uma fuga ao nazismo impôs-lhe um intervalo americano de seis anos, Vitebsk, cidadezinha, na Rússia, que o viu nascer, nunca o abandonou, perfilando-se como linha segura entre o pintor e o judaísmo. Um útero espiritual, refúgio onde Chagall encontrava casa para as suas memórias.
Marc Chagall, « Amantes sobre a cidade (Vitebsk)», 1918 |
Marc Chagall, «Praça do Mercado, Vitebsk», 1917 |
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Chansons Yiddish - Tendress et Rage - A Kalte Nakht
Yiddish: Iídiche é uma língua germânica, com cerca de três milhões de falantes, principalmente os judeus asquenazitas, no E.U.A., Israel, Rússia, Ucrânia e outros países. O nome do iídiche é provavelmente uma versão abreviada do ייִדיש - טייַטש (yidish taytsh-), que significa "alemão" judaica.Ver mais aqui
quinta-feira, 28 de julho de 2016
Federico García Lorca
CEMITÉRIO JUDAICO
As alegres febres fugiram às amarras dos barcos
e o judeu empurrou com o pudor gelado do interior das alfaces.
Os meninos de Cristo dormiam
e a água era uma pomba
e a madeira era uma garça
e o chumbo era um colibri
e ainda as vivas prisões de fogo
estavam consoladas pelo salto do gafanhoto.
Os meninos de Cristo vogavam e os judeus enchiam os muros
com um só coração de pomba
pelo qual todos queriam escapar.
As meninas de Cristo cantavam e as judias olhavam a morte
com um só olho de faisão,
vidrado pela angústia de um milhão de paisagens.
Os médicos põem no níquel suas tesouras e luvas de borracha
quando os cadáveres sentem nos pés
a terrível claridade de outra lua enterrada.
Pequenas dores ilesas abeiram-se dos hospitais
e os mortos vão despindo um trajo de sangue em cada dia.
As arquitectas de geada,
as liras e gemidos que se escapam das folhas diminutas
no Outono, molhando as últimas vertentes,
apagavam-se no negro dos chapéus altos.
A erva celeste e só da qual o orvalho foge com medo
e as brancas entradas de mármore que conduzem ao ar duro
mostravam seu silêncio quebrado pelas pegadas adormecidas dos sapatos.
O judeu empurrou a grade
mas o judeu não era um porto
e as barcas de neve de súbito juntaram-se
nas escadinhas do seu coração.
As barcas de neve que espreitam
um homem de água que as afogue.
As barcas dos cemitérios
que às vezes deixam cegos os visitantes.
Os meninos de Cristo dormiam
e o judeu ocupou sua liteira.
Três mil judeus choravam no medo das galerias
porque reuniam entre todos a custo meia pomba,
porque um tinha a roda de um relógio
e outro uma polaina com lagartas falantes
e outro uma chuva nocturna carregada de cadeias
e outra a unha de um rouxinol que estava vivo
e porque a meia pomba gemia
derramando um sangue que não era o seu.
As alegres febres bailavam pelas cúpulas humedecidas
e a lua copiava em seu mármore
nomes velhos e fitas estragadas.
Chegou a gente que come por trás das rígidas colunas
e os asnos de brancos dentes
com os especialistas das articulações.
Verdes girassóis tremiam
nos páramos do crepúsculo
e o cemitério inteiro era uma queixa
de bocas de cartão e trapo seco.
Já os meninos de Cristo adormeciam
quando o judeu, apertando os olhos,
cortou suas mãos em silêncio
ao escutar os primeiros gemidos.
As alegres febres fugiram às amarras dos barcos
e o judeu empurrou com o pudor gelado do interior das alfaces.
Os meninos de Cristo dormiam
e a água era uma pomba
e a madeira era uma garça
e o chumbo era um colibri
e ainda as vivas prisões de fogo
estavam consoladas pelo salto do gafanhoto.
Os meninos de Cristo vogavam e os judeus enchiam os muros
com um só coração de pomba
pelo qual todos queriam escapar.
As meninas de Cristo cantavam e as judias olhavam a morte
com um só olho de faisão,
vidrado pela angústia de um milhão de paisagens.
Os médicos põem no níquel suas tesouras e luvas de borracha
quando os cadáveres sentem nos pés
a terrível claridade de outra lua enterrada.
Pequenas dores ilesas abeiram-se dos hospitais
e os mortos vão despindo um trajo de sangue em cada dia.
As arquitectas de geada,
as liras e gemidos que se escapam das folhas diminutas
no Outono, molhando as últimas vertentes,
apagavam-se no negro dos chapéus altos.
A erva celeste e só da qual o orvalho foge com medo
e as brancas entradas de mármore que conduzem ao ar duro
mostravam seu silêncio quebrado pelas pegadas adormecidas dos sapatos.
O judeu empurrou a grade
mas o judeu não era um porto
e as barcas de neve de súbito juntaram-se
nas escadinhas do seu coração.
As barcas de neve que espreitam
um homem de água que as afogue.
As barcas dos cemitérios
que às vezes deixam cegos os visitantes.
Os meninos de Cristo dormiam
e o judeu ocupou sua liteira.
Três mil judeus choravam no medo das galerias
porque reuniam entre todos a custo meia pomba,
porque um tinha a roda de um relógio
e outro uma polaina com lagartas falantes
e outro uma chuva nocturna carregada de cadeias
e outra a unha de um rouxinol que estava vivo
e porque a meia pomba gemia
derramando um sangue que não era o seu.
As alegres febres bailavam pelas cúpulas humedecidas
e a lua copiava em seu mármore
nomes velhos e fitas estragadas.
Chegou a gente que come por trás das rígidas colunas
e os asnos de brancos dentes
com os especialistas das articulações.
Verdes girassóis tremiam
nos páramos do crepúsculo
e o cemitério inteiro era uma queixa
de bocas de cartão e trapo seco.
Já os meninos de Cristo adormeciam
quando o judeu, apertando os olhos,
cortou suas mãos em silêncio
ao escutar os primeiros gemidos.
Federico García Lorca, Antologia Poética, Org. e trad. de José Bento, Relógio D' Água, 1993, pp.313-315
domingo, 19 de junho de 2016
sábado, 18 de junho de 2016
«Chanson pour oublier Dachau» de Louis Aragon
Louis Aragon |
« Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs
Il n’y aura pas à courir les pieds nus dans la neige
Il ne faudra pas se tenir les poings sur les hanches
jusqu’au matin
Ni marquer le pas le genou plié devant un
gymnasiarque dément
Les femmes de quatre-vingt-trois ans
les cardiaques ceux qui justement
Ont la fièvre ou des douleurs articulaires
ou Je ne sais pas moi les tuberculeux
N’écouteront pas les pas dans l’ombre qui
s’approchent
Regardant leurs doigts déjà qui s’en vont en fumée
Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs
Ton corps
Ton corps n’est plus le chien qui rôde et qui ramasse
Dans l’ordure ce qui peut lui faire un repas
Ton corps n’est plus le chien qui saute sous le fouet
Ton corps n’est plus cette dérive aux eaux d’Europe
Ton corps n’est plus cette stagnation cette rancoeur
Ton corps n’est plus la promiscuité des autres
N’est plus sa propre puanteur
Homme ou femme tu dors dans des linges lavés
Quand tes yeux sont fermés quelles sont les images
Qui repassent au fond de leur obscur écrin
Quelle chasse est ouverte et quel monstre marin
Fuit devant les harpons d’un souvenir sauvage
Quand tes yeux sont fermés revois-tu revoit-on
Mourir aurait été si doux à l’instant même
Dans l’épouvante où l’équilibre est stratagème
Le cadavre debout dans l’ombre du wagon
Quand tes yeux sont fermés quel charançon les
ronge
Quand tes yeux sont fermés les loups font-ils le beau
Quand tes yeux sont fermés ainsi que des tombeaux
Sur des morts sans suaire en l’absence des songes
Tes yeux
Homme ou femme retour d’enfer
Familiers d’autres crépuscules
Le goût de soufre aux lèvres gâtant le pain frais
Les réflexes démesurés à la quiétude villageoise de
la vie
Comparant tout sans le vouloir à la torture
Déshabitués de tout
Hommes et femmes inhabiles à ce semblant de bonheur revenu
Les mains timides aux têtes d’enfants
Le cœur étonné de battre
Leurs yeux
Derrière leurs yeux pourtant cette histoire
Cette conscience de l’abîme
Et l’abîme
Où c’est trop d’une fois pour l’homme être tombé
Il y a dans ce monde nouveau tant de gens
Pour qui plus jamais ne sera naturelle la douceur
Il y a dans ce monde ancien tant et tant de gens
Pour qui toute douceur est désormais étrange
Il y a dans ce monde ancien et nouveau tant de gens
Que leurs propres enfants ne pourront pas
comprendre
Oh vous qui passez
quinta-feira, 2 de junho de 2016
O manuscrito de Primo Levi
Manuscrito de Primo Levi Ler artigo aqui |
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Obediência vs. Adesão
Hannah Arendt |
Todavia, existe uma outra tradição e um outro vocabulário não menos antigos nem menos consagrados pelo tempo. Quando a cidade-estado ateniense chamava à sua constituição uma isonomia, ou quando os romanos falavam da civitas como sendo a sua forma de governo, pensavam numa conceção do poder e da lei cuja essência não assentava na relação de comando-obediência, do mesmo modo que não identificavam o poder com a dominação, nem a lei com o comando. Foi para estes exemplos que os homens das revoluções do século XVIII se voltaram, pesquisando os arquivos da Antiguidade e constituindo uma forma de governo, uma república, na qual o primado da lei, assente no poder, poria fim à dominação do homem sobre o homem, concebida por eles como um «governo para escravos». Também eles, infelizmente, continuaram a falar de obediência - obediência às leis em vez de obediência aos homens; mas o que entendiam pelo termo era a adesão às leis às quais os cidadãos tivessem dado o seu consentimento. A adesão nunca é inquestionável, e no que se refere à sua garantia, esta não coincide com a "obediência inquestionável" que um ato de violência pode impor - esse tipo de obediência com que o criminoso pode contar quando me rouba a carteira tendo uma faca por arma, ou assalta um banco com uma arma de fogo na mão. É a adesão do povo que confere poder às instituições de um país, e esta adesão não é mais do que a continuação do consentimento que foi de início a origem das leis. Sob as condições de um governo representativo, considera-se que o povo comanda aqueles que o governam.» (pp. 45-46)
Hannah Arendt, Sobre a Violência, Relógio D' Água, 2014
(em breve na Biblioteca da Escola)
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sábado, 7 de maio de 2016
A iconoclastia de Helmut Herzfeld (1891-1968)
Helmut Herzfeld |
Entre 1917 e 1918 tomou várias decisões que marcariam decisivamente o curso da sua vida. Face à crescente anglofobia, que parecia estender-se por toda a Alemanha, decidiu adoptar um pseudónimo "britanizado", John Heartfield; filiou-se no Partido Comunista; tornou-se membro activo do dadaísmo.
Com a subida dos nazis ao poder, tornou-se num alvo a abater. Em Abril de 1933, fugiu pela janela quando os membros das SS lhe assaltaram a casa. Atravessando a pé os Sudetas, instalou-se na Checoslóváquia, mas perante a iminência da ocupação nazi, voltou a fugir, cinco anos passados, para Inglaterra.
Eis algumas das suas obras:
Sangue e ferro |
E, no entanto, o mundo move-se |
Hitler, o Super-homem, come ouro e cospe lixo |
O rosto do Fascismo (Mussolini) |
O Verdugo e a Justiça |
Nunca mais! |
domingo, 1 de maio de 2016
Raymond Depardon
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