domingo, 12 de novembro de 2017

George Steiner

Como avalia, então, cinquenta anos mais tarde a famosa declaração de Adorno: «Nenhuma poesia é possível depois de Auschwitz»?

Na altura pareceu-me uma declaração crucial e completamente natural; mas esperava refutação. A refutação aconteceu com a poesia de Paul Celan, que contrariou essa afirmação - e Adorno soube disso antes de morrer. Vamos recuar uns passos. A questão obscena de contar cadáveres não se põe, mas coloco no mesmo grupo os campos de concentração, tanto da Polónia, como da Alemanha, ou onde quer que sejam: o fenómeno da prisão em massa e do extermínio de milhões de seres humanos de uma ponta do mundo à outra. Uma das respostas possíveis é dizer que toda a nossa cultura se mostrou totalmente impotente e sem defesa, aliás, embelezou uma grande parte do assunto. Gieseking tocava a integral da música para Debussy durante as noites em que se ouviam os gritos das pessoas nos vagões de comboio selados na estação de Munique com destino a Dachau, nos arredores. Os gritos chegavam à sala de concertos. Isto foi registado. Nenhum testemunho sugere que ele não tenha tocado maravilhosamente bem, tão pouco que o público não se tenha mostrado completamente receptivo e profundamente comovido.
Sim, tivemos a crítica niilista de Adorno, ou a formulação de Walter Benjamin: «Na base de cada grande obra de arte estão os escombros da barbárie.» Podemos encarar esta frase como muitas pessoas da Escola de Frankfurt de certo modo fizeram, mas dando um passo em frente e dizendo: «É melhor calarmo-nos um bocadinho.» Já sonhei muitas vezes com a proibição de discutir estes assuntos - durante dez, quinze anos - , de modo que seja impossível reduzi-los a linguagem clara, que curiosamente os torna aceitáveis. Era disto que Adorno na realidade falava: cuidado! Mesmo o maior protesto, se formalizado, digamos, em verso, rima ou estrofes, impõe ao fenómeno uma aura de aceitabilidade.
O segundo passo, e também o mais difícil, foi dizer: «Não, apesar de tudo isto, ainda consigo transmitir ou comunicar algo da experiência essencial.» Entre toda a enorme diversidade de literatura dedicada ao Holocausto, só três ou quatro escritores conseguiram.

Quem são eles?

Celan acima de todos. Sem qualquer dúvida, Primo Levi, o escritor ítalo-judeu: magnífico, magnífico, magnífico. Não tem uma palavra fora do lugar; é um milagre. Um ou dois europeus de leste menos conhecidos, alguns contos letónios maravilhosos. Há talvez meia dúzia de textos onde diria que essa ousadia foi justificada. Mas a que custo? Celan suicidou-se. Primo Levi suicidou-se. Jean Améry suicidou-se. Muito depois, como se já tivessem prestado testemunho; deixou de haver sentido  na vida deles e na linguagem que usaram. Horroriza-me qualquer tentativa de capitalizar este material da parte de quem não viveu estas experiências em primeira mão.

Entrevistas da Paris Review - 3, Trad. Alda Rodrigues,  Tinta da China, Setembro 2017



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