segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Mais discriminadores do que gostaríamos?

O vídeo que publicamos dá conta de uma experiência que Anniee Leblanc, professora no Quebec, decidiu realizar com os seus alunos de 9 anos que considera "inteligentes, vivos e criativos".
A experiência, com base em investigações a nível da psicologia social realizadas por Henri Tajfel, sobrevivente dos campos de concentração nazis, replica uma outra aplicada por Jane Elliott, em 1970, em Lowa, numa escola de um meio maioritariamente rural e branco.
A tese defendida é a de que os seres humanos discriminam naturalmente. Para provarem que esta ideia é verdadeira, as experiências propõem a divisão de um determinado grupo em dois, segundo critérios absurdos, mas supostamente validados por crenças científicas (J. Elliott escolheu a cor dos ollhos, os azuis indiciariam uma menor inteligência, A. Leblanc optou pelas alturas, os mais altos/os mais baixos).
Os resultados parecem demonstrar que esta separação introduz uma categorização, "nós-eles"*, suficiente para que os elementos de cada grupo comecem a favorecer-se, em detrimento do outro, criando um efeito de discriminação.

(Pedimos desculpa pela má qualidade das legendas!)



* Econtramos esta categorização no excerto d' O Rapaz do Pijama às Riscas, de John Boyne, livro existente na biblioteca da escola, na estante 'Estudos da Shoah':

- Judeus – disse Bruno, experimentando a palavra. Gostava bastante da maneira como soava. – Judeus – repetiu ele. – Todos os que vivem daquele lado da vedação são judeus.
         - Sim, é isso – disse Gretel.
         - E nós, somos judeus?
         Gretel ficou boquiaberta, como se tivesse acabado de levar um estalo na cara.
         - Não, Bruno – disse ela. – Não, claro que não somos. E tu nem sequer devias dizer uma coisa dessas.
         - Mas porquê? Então, o que é que nós somos?
         - Somos…-começou Gretel, mas depois teve de parar e pensar antes de responder: - Somos…- repetiu ela, mas não estava muito certa de qual seria a resposta a esta pergunta. – Bem, nós não somos judeus – disse ela finalmente.
         - Eu sei que não – disse Bruno frustrado. – O que eu quero saber é: se não somos judeus, então o que é que somos?
         - Somos o oposto – respondeu Gretel muito depressa, parecendo bem mais satisfeita com esta resposta. – Sim, é isso mesmo. Somos o oposto.
         - Está bem – disse Bruno, satisfeito por ter finalmente tudo esclarecido na sua cabeça.- Os opostos vivem deste lado da vedação e os judeus vivem daquele.
         - Isso mesmo, Bruno.
         - Então os judeus não gostam dos opostos?
         - Não, estúpido, somos nós que não gostamos deles.
         Bruno fez cara feia. Já tinham dito vezes sem conta à Gretel que não lhe chamasse estúpido, mas ela continuava.
         - Então, porque é que nós não gostamos deles? – perguntou ele.
         - Porque eles são judeus – disse Gretel.
         - Estou a ver. E os opostos e os judeus não se dão muito bem.

John Boyne, O Rapaz do Pijama Às Riscas, Asa, 2007, pp. 149, 150

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