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sábado, 27 de janeiro de 2018

Pavel Friedmann

A Borboleta  

A última, a última das últimas,
Tão intensa, brilhante, estonteantemente amarela.
Talvez se as lágrimas do sol cantassem
Sobre uma branca pedra.

Tanto, tanto amarelo
Alto levado levemente.
Assim se vai porque tenho a certeza que deseja
beijar o mundo com um a-deus.

Há sete semanas que vivo aqui,
Dentro deste gueto encurralado.
Mas descobri o que aqui amo,
Chamam-me os dentes-de-leão
E os braços da castanha branca.


Só mais nenhuma borboleta vi.
Aquela borboleta foi a última.
As borboletas não vivem aqui,
no gueto.

Pavel Friedman, morto em Auschwitz em 1944

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Werner Reich, sobrevivente de Auschwitz, por terras lusas

“Se virem algo errado, falem”, pede sobrevivente de Auschwitz

Aos 90 anos, Werner Reich anda por escolas a contar como foi ser criança e adolescente judeu nos campos de concentração de Auschwitz. Na Universidade de Coimbra uma plateia assombrada extravasou os limites do auditório da Reitoria para o ouvir.

Mais aqui

domingo, 9 de abril de 2017

Tonnino Guerra

Tonino Guerra (1920-2012)
A sua experiência no campo de concentração... Sabe, custa-me muito formular uma pergunta.
Era muito jovem e olhava para os sofrimentos com curiosidade. Nesse lugar terrível comecei a escrever poesia em dialeto (o romagnolo), pois essa era a língua dos operários, meus companheiros. Não tinha papel e todas as noites dizia os poemas para os manter na memória. No dia de Natal de 1944 não nos serviram o 'bròdo' (uma espécie de sopa) que era de tradição comer. E os meus companheiros pediram-me que falasse das comidas de Natal. Eu com palavras e gestos criei uma ceia de Natal, longa e deslumbrante, cheia de coisas saborosas que todos fingiam apreciar. Quando acabei de servir, de fingir que servia a 'tagliatèlla', deu-se uma cena comovente: um companheiro perguntou-me se podia comer um pouco mais.

E isso no meio daquele inferno. 
Lembro-me dos bombardeamentos, do barulho ensurdecedor, do medo... E de me pôr a pensar em qual seria a coisa que mais pena me fazia abandonar no mundo.

Mas aconteceu a libertação. 
No dia da libertação os portões do campo apareceram abertos e tinham desaparecido os jovens soldados alemães. Fomos todos até aos portões e faltava-nos a coragem de sair. Um prisioneiro avançou dois passos e voltou para trás de novo. A um certo ponto, três ou quatro desatamos a correr em direção a um bosque. Foi ali que tive uma das maiores alegrias da vida. Depois de todo aquele horror, fui capaz de olhar para uma borboleta sem vontade de a comer.

Que idade tinha? 
Vinte e dois ou vinte e três anos.


domingo, 26 de março de 2017

Lotte Lenya e Kurt Weill

Etty Hillesum (1914-1943)

Serei mais tarde a cronista das nossas vicissitudes. Forjarei uma nova linguagem em mim e guardá-la-ei se não tiver oportunidade de escrever alguma coisa. Tornar-me-ei sensível e ressuscitarei e cairei morta; e ressuscitarei novamente. Pode ser que então mais tarde tenha um espaço tranquilo em meu redor e, nesse caso, hei-de ficar tanto tempo lá sentada, mesmo que por um ano, até a vida brotar de novo em mim e as palavras que darão testemunho daquilo que terá de ser testemunhado me surgirem.

Etty Hillesum, Diário 1941 -1943, Trad. Maria Leonor Raven- Gomes, Assírio & Alvim, 2009



Pat Brassington, «The tongue»



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Etty Hillesum

Há um silêncio desmedido a crescer dentro de mim. E à volta dele fluem tantas palavras que te cansam, porque não há nada para exprimir com elas. Deve cada vez mais poupar-se palavras banais a fim de achar aquelas de que uma pessoa precisa. E através do silêncio deve crescer a nova possibilidade de expressão.
Etty Hillesum, "Diário 1941-1943"

sábado, 7 de janeiro de 2017

Diana Budisavljevic

«Durante a II Guerra Mundial, Diana salvou mais de 12 mil crianças dos campos de concentração de Jasenovac (conhecido como Auschwitz croata) e de Stara Gradiska, criados pelo regime, antissemita e fascista, do estado independente da Croácia. As crianças, na maioria sérvias, eram originárias da Croácia e Bósnia-Herzegovina. (...)
Em 1917, Diana casou com o servo-croata, Julije Budisavljevic, cirurgião que conhecera em Innsbruck, durante um estágio numa clínica da cidade. Dois anos depois instalaram-se em Zagrebe. A partir de abril de 1941, os Ustasha, fascistas croatas, desencadearam a sua própria "solução final" contra judeus, sérvios, ciganos ou comunistas e abriram campos de concentração. A partir de outubro começaram a circular notícias sobre o encarceramento de mulheres e crianças, judias e sérvias nos arredores de Zagrebe. (...) Diana decidiu encarregar-se do assunto. Envolveu-se no trabalho humanitário e fundou o movimento "Ação de Diana Budisavljevic".
Campo de concentração de Jasenovac
Assim começou uma das maiores ações humanitárias dos Balcãs e, provavelmente, de toda a Europa ocupada. Aproveitando-se das suas origens austríacas, Diana aproximou-se dos responsáveis políticos e militares e tentou salvar crianças dos campos. Encontrou-se por diversas vezes com o cardeal Alojzije Stepinac que lhe assegurou apoio.
No seu diário, Diana Budisavljevic descreve as longas difíceis negociações que conduziu junto do poder político e dos clérigos. Foi compilando arquivos com dados exatos sobre as crianças que retirava dos campos, para conhecer as suas origens e poder encontrar sobreviventes das suas famílias uma vez terminada a guerra.»

«A lista de Diana», Courrier Internacional, Janeiro 2017, p. 48

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944


Foto de Irene Hansen.
Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944.
Témoignage de Ferdinand De Grève.
" j'habitais au block 58. Au matin, je reçus l'ordre d'accompagner deux SS, chiens en laisse, pour abattre des petits sapins. Aux casernes des SS, les soldats allaient fêter Noël. Je fus conduit vers le bois et j'avais en main une hachette. Eux, désignaient les sapins qu'il fallait couper. Au début de l'après-midi, un kommando vint avec une charrette à bras pour effectuer le chargement. J' avais dû rassembler les sapins et les mettre en tas. Une idée me vint: je dissimulai un tout petit sapin dans une " jupe" du pantalon et puis un deuxième dans l'autre. Par la ceinture, je les avais fixés avec une corde. Ils me collaient à la cuisse entre la chemise et le pantalon. Heureusement, pas de contrôle sévère à la Tour. Je fus " lâché" dans le camp. Réjoui de mon exploit, j'en fis part au chef de block et ensemble, avec d'autres camarades, nous cherchâmes de petits cadeaux : un sucre, un bout de chocolat, une cigarette, un bonbon etc...Vers 22 heures, nos sapins étaient garnis. Une tombola fut tirée pendant que des histoires et des chansonnettes en wallon, en flamand et en bruxellois animaient la soirée. Un groupe de catholiques, suivi par d'autres, entonnèrent le " Minuit Chrétien ". Nous avions ainsi fêté Noël 44, à la manière et avec les moyens des internés"
Extrait et photo tirés du livre " Les belges à Buchenwald".

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

August Sander

«Os nazis censuraram Sander porque os seus " rostos da época " não correspondiam à estética nazi.»

Roland Barthes / A Câmara Clara







quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Robert F. Wagner, senador norte-americano

Após o episódio da Noite de Cristal, o senador norte-americano Robert Wagner propôs que 20 mil crianças judias alemãs com menos de 14 anos pudessem emigrar para os EUA, escapando à Alemanha nazi - mas a sua proposta foi derrotada numa comissão do Congresso, sem chegar sequer a ir a plenário. Na verdade, 70% dos americanos opunham-se a esta ideia, recordou o New York Times, num outro aniversário deste episódio, citando o historiador David Wyman. Algumas crianças acabaram por sair da Alemanha - o Kindertransport levou 10 mil para o Reino Unido. Por vezes, as crianças (idade máxima 17 anos) eram as únicas sobreviventes da sua família.
Mas se a Alemanha nazi se queria ver livre do máximo possível de judeus, os restantes países não os queriam receber. O Presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, tinha convocado para Junho de 1938 uma conferência sobre o problema do número crescente de judeus que fugia da perseguição nazi e procurava outros países para se refugiar, Durante uma semana, em Évian, França, delegados de 32 países e 39 organizações privadas trocaram desculpas para não receber refugiados - a conferência foi um fracasso, embora se tenha criado o Comité Intergovernamental para os Refugiados, para acompanhar a situação.
Tal como hoje, vivia-se um período de depressão económica, e a possibilidade de entrada de milhares de emigrantes judeus configurava uma ameaça de concorrência pelos empregos que já faltavam. A estes motivos económicos juntavam-se os preconceitos raciais enraizados relativamente aos judeus - que não existiam apenas na Alemanha.
Apenas a República Dominicana aceitou receber mais refugiados, lê-se no sitedo Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Em 1939, Londres restringiu as quotas de imigração para a Palestina, então sob mandato britânico - mas o resultado foi que aumentou a imigração clandestina de refugiados judeus. Os britânicos interceptam-nos e colocam-nos em campos - tal como acontece hoje aos imigrantes que tentam entrar, de barco, pela costa Sul europeia.
retirado daqui

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Nicholas Winton, a discrição de um herói

Aristides de Sousa Mendes, desobediente exemplar

Aristides de Sousa Mendes e família

Mais sobre Aristides de Sousa Mendes em (disponível na biblioteca da escola):



Ou aqui:

Henry David Thoreau

As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para as emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais?

A Desobediência Civil, Trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2015, p. 27