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sexta-feira, 7 de julho de 2017

George Steiner - «O verdadeiro crime é viver demasiado»

Como era a sua família?
Tinha características centro-europeias e vienenses, pois minha mãe era austríaca e o meu pai checo. Eu nasci e fui criado em Paris, porque em 1924 a família mudou-se para França. O meu pai, que tinha uma intuição política extraordinária, estava certo de que o desastre na Alemanha e na Áustria estava para vir.

Esse não foi o único momento em que a intuição do seu pai funcionou.
Não. De facto, em 1940, voltou a sentir perigo e tirou-nos de Paris. De outro modo teria sido demasiado tarde. Ele não teve qualquer dúvida de que os alemães viriam e de que a França seria provavelmente vencida. Estava em Nova Iorque e mandou-nos chamar, porque teve uma informação, na qual acreditou, de que a França seria ocupada em poucos meses. Saímos de Génova no último navio americano para Nova Iorque.

Foi por isso que, num ensaio dos anos 60, se definiu a si próprio como «uma espécie de sobrevivente»?
Sim, porque na minha escola em Paris, onde havia muitos judeus, só dois sobreviveram. Todos os outros foram mortos. Portanto, é um milagre ter sobrevivido.

E o que é ser um sobrevivente?
É complicado. Significa ter vergonha, perguntar-se: «porquê eu?», quando os outros morreram. E, por outro lado, significa ter ao longo da vida a obrigação de nunca esquecer.

Entrevista de Luciana Leiderfarb, «Revista do Expresso», 3/Junho/2017

domingo, 7 de agosto de 2016

Ana Cristina Leonardo

" (...) O Papa a caminhar pelo campo encenando uma solidão grave , rodeado de flashes , cabos , fotógrafos , e guarda -costas subtraídos com ciência ao enquadramento , não se ajusta . Auschwitz não é um cenário. Por enquanto , não é um cenário . As fotografias podem ser de bom gosto - um homem só , de vestes brancas a arrastar pelo chão rosto fechado e cabeça baixa - , mas há momentos em que o bom gosto se torna uma obscenidade. E , assim como o bebé que morreu no Mediterrâneo não era um Nenuco , Auschwitz não é um estúdio de Hollywood. Estamos doentes. Primo Levi soube disso antes de nós . "
Ana Cristina Leonardo / Expresso , 6 de Agosto 2016

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Avrom Reisen

Avrom Reisen
Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)
Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.
Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.
Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.
Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.
Avrom Reisen
“Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס— forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.
Copiado daqui