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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944


Foto de Irene Hansen.
Buchenwald : célébration de la Noël, la nuit du 24 au 25 décembre 1944.
Témoignage de Ferdinand De Grève.
" j'habitais au block 58. Au matin, je reçus l'ordre d'accompagner deux SS, chiens en laisse, pour abattre des petits sapins. Aux casernes des SS, les soldats allaient fêter Noël. Je fus conduit vers le bois et j'avais en main une hachette. Eux, désignaient les sapins qu'il fallait couper. Au début de l'après-midi, un kommando vint avec une charrette à bras pour effectuer le chargement. J' avais dû rassembler les sapins et les mettre en tas. Une idée me vint: je dissimulai un tout petit sapin dans une " jupe" du pantalon et puis un deuxième dans l'autre. Par la ceinture, je les avais fixés avec une corde. Ils me collaient à la cuisse entre la chemise et le pantalon. Heureusement, pas de contrôle sévère à la Tour. Je fus " lâché" dans le camp. Réjoui de mon exploit, j'en fis part au chef de block et ensemble, avec d'autres camarades, nous cherchâmes de petits cadeaux : un sucre, un bout de chocolat, une cigarette, un bonbon etc...Vers 22 heures, nos sapins étaient garnis. Une tombola fut tirée pendant que des histoires et des chansonnettes en wallon, en flamand et en bruxellois animaient la soirée. Un groupe de catholiques, suivi par d'autres, entonnèrent le " Minuit Chrétien ". Nous avions ainsi fêté Noël 44, à la manière et avec les moyens des internés"
Extrait et photo tirés du livre " Les belges à Buchenwald".

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ainda! a noite de cristal.

Felix Nussbaum

Felix Nussbaum, “Camp Synagogue at Saint Cyprien”, 1941

9 de Novembro de 1939, a noite de cristal, ou o princípio do holocausto


TOTENBUCH

Com horror

haveríamos de encontrar o círculo negro da história,
o arquivo inabitável, irrespirável.

É amoral o gesto de quem regista,
assinala óbitos, assepsias, extermínios.

Um forno não é um forno
e um chuveiro não é mais um chuveiro.

O funcionário que regista tem
por dedos lâminas rombas.

Desenha com método. Anota com desvelo.



Luís Quintais, Depois da Música (Tinta da China, 2013), p. 28.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Maria Filomena Molder

« (...) Lembro-me da descrição muito breve, num texto de Primo Levi, de uma criança que tinha nascido num campo de concentração e tinha ficado sem mãe. E ninguém a ensinou a falar. Aos três anos andava como um zombie, era uma figura do horror.»

foto de Pat Brassington


em entrevista concedida ao «Expresso» em 06.06.2016

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O massacre de judeus em Lisboa de 1506

«Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.»
Alexandre Herculano in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Sobre «O Universo Concentracionário» de David Rousset

por José Marmeleira em " Um dos primeiros testemunhos do terror nazi", Ípsilon/Público, 25 Março 2016 

Um dos primeiros testemunhos do terror nazi, O Universo Concentracionário, de David Rousset ( !912-1997), conclui-se com um aviso. Escreve o autor francês (112): " A sociedade alemã, quer devido à sua estrutura económica quer à dureza da crise que a arruinou, conheceu uma decomposição ainda excepcional na actual conjuntura do mundo. Mas seria fácil mostrar que os traços mais característicos, não só da mentalidade S.S. como também dos alicerces sociais, se encontram em muitos outros sectores da sociedade mundial. (...) Seria um logro, e criminoso, pretender que é impossível aos outros povos fazerem experiência semelhante por terem uma natureza diferente ". Este é um homem em sobreaviso. Nada garante que o que aconteceu permaneça para uma excepção ou irrepetível. Nada.
Ditado por Rousset a mulher em 1945, o ano da sua libertação do Campo Wöbbelin (Norte da Alemanha), o Universo Concentracionário pretende ser uma descrição objectiva [...]
David Rousset começa por descrever, dum ponto de vista cimeiro, uma mescla de corpos e máquinas, terra e morte. O olhar descerá, depois, sobre os cadáveres e torpedos que se confundem com as imundícies, os ventres gelados que os gritos e as pancadas sacodem.
Buchenwald, onde foi encerrado em 1943, é uma cidade isolada que "vive sob o signo de um enorme humor, de uma palhaçada trágica". Chegados à cidade, os detidos saltam dos vagões, como "bonecos de corda partida", "cegos de golpes", "pegajosos de medo". Arrastam-se pelos corredores kafkianos e seguem para os barracões onde, despidos de tudo, serão vacinados sob rajadas de vento. [...]
Os campos que o autor conheceu (Buchenwald, Neuengamme, Porta Westfalica, Wöbbelin) não eram de extermínio, mas entre eles e Auschwitz a diferença era de grau, não de natureza. Em todos se enforcavam homens. A entrada no universo concentracionário já se fez. Aqui vigoram as leis da vida biológica, a competição encarniçada pela sobrevivência. As idades, as profissões, as posições sociais, as biografias desfazem-se lentamente. "O velho é um objecto de escárnio e de desprezo, por causa da fraqueza. A única coisa que conta é o poder" (p. 46) [...]
Mas seria indigno de Universo Concentracionário (fonte incontornável de As Origens do Totalitarismo, De Hannah Arendt), concluir este texto sem lembrar a insistência dos detidos políticos em falar e conversar, apesar das ameaças, e as palavras que Rouusset dedica aos que permanecem firmes. Erich, Emil, Kurt, que nunca bateram em ninguém, Walter, que continuou sensível, Ernest, simpático, que manteve uma vida sã, normal. Todos mantiveram incólume a sua dignidade naquele inferno.
David Rousset (no centro da foto, de óculos)



sexta-feira, 11 de março de 2016

Os campos de concentração

O campo encontrava-se cercada por duas ou três vedações de arame farpado, geralmente electrificados, intersectadas por torres de vigias, onde havia guardas armados de metralhadoras que mantinham sob vigilância, de dia e noite, o perímetro do campo. Tinha de existir apenas um portão no campo, por cima do qual estava habitualmente inscrito: Arbeit macht frei (O trabalho liberta).
Os detidos que chegavam eram levados para uma área onde eram postos de quarentena (um quarto, uma cabana ou uma tenda). Aí eram totalmente despidos; muitas vezes tomavam um duche e eram desinfectados, sendo o cabelo completamente rapado. Por fim, eram registados e tatuados. Os «números mais baixos» eram, por sonseguinte, os deportados que tinham sobrevivido durante mais tempo, eram tidos em grande consideração pelos restantes e ocasionalmente eram-lhes dadas pequenas vantagens,
De seguida era-lhes dada roupa de deportados – o famoso «pijama» às riscas. Nos primeiros tempos, os deportados trocavam de roupa de modo a terem uma que lhes servisse. Nos anos finais, como já se tratava de roupas recuperadas àqueles que tinham sido seleccionados, muitas vezes não eram mais do que farrapos.
Após algum tempo, os novos detidos eram mandados para um bloco e incluídos num Kommando. O bloco era constituído por um conjunto de cabanas, geralmente de madeira, onde os internados dormiam em beliches de madeira com vários andares. Tinham de dormir várias pessoas no mesmo andar e tinham de se deitar de lado para caberem. Estes beliches podiam ter colchão, enchidos com um pouco de palha, mas o mais comum era nem sequer terem nada ou no máximo terem um cobertor. O bloco não tinha instalações sanitárias. Em certos casos, existia um balde ou uma bacia – que, quando limpa, podia servir para o «café» da manhã. À noite os detidos estavam proibidos de se ausentarem do bloco para irem às latrinas: aqueles que arriscavam a saída podiam ser mortos se fossem apanhados. O bloco era dirigido pelos «mais velhos» (Eltern) – escolhidos pelos guardas: era responsabilidade dos Eltern destinarem os beliches e manterem a ordem no bloco. A prática rapidamente demonstrou que os deportados «políticos» se comportavam de uma forma muito mais humana nesse papel do que os criminosos comuns. Os Kommandos eram grupos de trabalho. Alguns eram permanentes, outros temporários, dependendo da natureza do trabalho que efectuavam. Também existiam Kommandos  disciplinares. Mas o essencial na sobrevivência no trabalho não era necessariamente a sua natureza ou grau de dificuldade; era antes a personalidade do Kapo que dirigia o Kommando. Alguns desses, os criminosos comuns, agiam de forma brutal, ocasionalmente, quando o Kommando saía demanhã para o trabalho, os guardas das SS instruíam o Kapo para regressar com um determinado número de mortos; cabia-lhe a escolha das vítimas, de onde e como seriam mortas.
Cada farda tinha a marca da sua categoria; o triângulo verde indicava os criminosos comuns. Eram estes que constituíam a maioria dos kapos – em alguns casos isso levou a alguns melhoramentos nas condições de detenção.
Havia triângulos de outras cores: preto, para os «a-sociais»; castanho, para os Ciganos; azul, para os apátridas; cor-de-rosa, para os homossexuais; e púrpura para as Testemunhas de Jeová.
Contudo, o triângulo amarelo era de longe a marca mais vista e era usada pelos judeus. Eram eles que constituíam o grosso daqueles que, em Auschwitz, e depois nos outros campos, eram apelidados de «Muselmanner» (muçulmanos): particularmente fragilizados pela fome (as rações diárias eram compostas por uma tigela do famoso caldo ralo e por um pequeno pedaço de «pão», cujo número de calorias, em teoria, era calculado para não garantir a sobrevivência), a longa sessão de chamada pela manhã, as caminhadas até aos locais de trabalho, o trabalho árduo e os espancamentos frequentes, estes homens perdiam toda a dignidade de toda e qualquer consciência, à excepção da fome; perdiam a capacidade de pensar e de falar.
Em termos gerais, a luta pela sobrevivência isolou cada um dos deportados, que tinha de lutar para conservar aquilo que possuía (roupa, sapatos, tigela, colher, um pedaço diário de pão; afastar os olhos desses bens, por um momento, representava a possibilidade de ser roubado) e de tentar obter suplementos de todas as formas possíveis.
(…) No campo, os dias seguiam um ritual inalterável: levantar, limpar o bloco, distribuição do «café» e do pedaço diário de pão. Após uma higiene rudimentar, os prisioneiros tinham de se apresentar no pátio para a chamada. Em fila, todos os internos eram chamados pelo seu número de registo. Se o registo da chamada estivesse incompleto, recomeçavam a chamada – tantas vezes quantas as necessárias até estar completa. Por esta razão, assim sendo a chamada podia durar horas, independentemente do estado do tempo.
Se a noite anterior tivesse ocorrido um incidente ou uma fuga, o sofrimento era sistematicamente prolongado.
Após a chamada completa, os kommandos partiam para o trabalho. Em determinados campos existia uma orquestra de deportados que tocava quando partiam e quando regressavam à noite. O dia de trabalho 8de 8-9 horas no  Inverno e de 10-12 no Verão) era interrompido apenas para a distribuição da sopa. À noite era feita nova chamada, seguida do regresso aos blocos. De tempos a tempos, os deportados eram autorizados a tomar um banho.
Certas funções ou certos kommandos ofereciam uma maior possibilidade de sobrevivência: a enfermagem, o serviço de cozinha, e os serviços auxiliares 8por exemplo, Primo Levi foi utilizado como farmacêutico). Quando os kommandos trabalhavam no exterior do campo, era raro que não fossem ajudados por algum trabalhador local compadecido. Os responsáveis pela entrega de sopa aos Kommandos comiam os poucos bocados de carne que esta tinha. À parte da capacidade de realizar trabalhos muito especializados, para sobreviver, era necessário ter o velho ou o kapo do seu lado, e para que tal sucedesse, isso era muitas vezes conseguido à custa dos demais. Era frequente a prostituição, tanto feminina, quanto masculina (e não apenas por parte de homossexuais) – com os SS, auxiliares locais, os velhos ou kapos, ou os deportados «privilegiados».

J. M. Lecomte, Ensinar o Holocausto no Século XXI, Via Occidentalis, 2007, pp. 121-125 
(livro disponível na biblioteca da escola, na estante "Estudos do Holocausto/Shoá") 



Outra vez Terezín, a hipocrisia!

Wiesel & Adelsberger: a fome

Eli Wiesel em 1943 (com 15 anos)
«Alguns dias depois, fecharam o gabinete do dentista, que tinha sido metido na prisão. Ia ser enforcado. Tinha-se descoberto que ele traficava os dentes de ouro dos detidos em seu proveito próprio. Não sentia qualquer piedade em relação a ele. Estava mesmo muito contente com o que lhe acontecera: salvara a minha coroa de ouro. Um dia, ela poderia ser-me útil para comprar alguma coisa, o pão, a vida. Já só me interessava pelo meu prato de sopa quotidiano, pelo meu bocado de pão meio duro. O pão, a sopa – eram a minha vida. Eu era um corpo. Talvez menos do que isso: era um estômago esfomeado. Só o estômago sentia a passagem do tempo.»

Elie Wiesel, Noite, Texto Editora, Porto, 2003, p. 60 (livro disponível na biblioteca da escola, na estante "Estudos do Holocausto/Shoá") 

Memórias da Dra. Lucie Adelsberger

«Aquele que conheceu a fome sabe que não se trata apenas de uma sensação animal, mas sim de um suplício que põe os nervos em franja, de uma agressão contra a totalidade da pessoa. A fome torna as pessoas más e altera o carácter. Muitas coisas quando observadas do exterior parecem, a todos os títulos, monstruosas; mas quando relativas aos detidos tornam-se compreensíveis, e até desculpáveis, se forem vistas à luz da fome.»

Citado em Lecomte, p. 125, Ensinar o Holocausto no Século XXI, Via Occidentallis, 2007 (livro disponível na biblioteca da escola, na estante "Estudos do Holocausto/Shoá")

"Terezín", foto de D. Blaufuks


quinta-feira, 10 de março de 2016

Helen Lewis


Ainda antes de 1942, os judeus foram obrigados a entregar às autoridades não apenas os aparelhos de rádio, como as suas jóias, pratas, peles e tudo quanto tivesse valor. Que mais haveria ainda para lhes tirar? Por incrível que pareça a resposta é «os animais de estimação», esses pequenos e inocentes amigos que tantas vezes são a única alegria que nos resta num mundo envolto em trevas. Para alguns, em especial para as crianças e velhos, foi este o golpe mais duro. No dia aprazado, lá iam eles nos eléctricos, os rostos brancos, a tentar sufocar as lágrimas, agarrados aos pequenos volumes que deviam entregar nos centros de recepção: porquinhos-da-índia, hamsters, ratinhos brancos, tartarugas e, claro está, gaiolas com pássaros. Os mais difíceis eram os cães e os gatos, que gritavam durante todo o percurso, como se soubessem. O pai de Paul, um cavalheiro alto, tranquilo e sempre muito digno, foi obrigado a entregar Pepicek, o canário de que tanto gostava. Nessa noite parecia mais pequeno, mais enrugado e desamparado. (pp. 46-47)

Tempo para Falar, Planeta, 2013






David Grossman entrevistado por Filipa Melo

Quando acabei de reler Ver: Amor, fiquei a pensar num paradoxo: o realismo não é suficiente quando se escreve sobre situações extremas. Passou-se assim com a literatura sobre a Shoá. Após a primeira geração de escritores-testemunhas, as gerações seguintes tiveram de recorrer à imaginação, para colorir as primeiras imagens a preto e branco.
Não creio que colorir seja um bom termo. Em Ver:Amor, usei o realismo mágico,
não para colorir, mas para analisar a situação sob outro ponto de vista. O romance corresponde a quatro tentativas muito diferentes de escrever sobre a Shoá: do realismo de Momik à corrente de consciência e realismo mágico de Bruno, ao registo quase teatral da relação entre Wasserman e Niegel e, no final, ao estilo enciclopédico ou semicientífico. Havia uma quinta parte, da qual desisti, porque senti que quatro eram suficientes para mostrar a impossibilidade de escrever sobre a Shoá. Sabemos que vamos falhar, mas temos de continuar a tentar. Por vezes, penso que olhar para a Shoá assemelha-se a olhar diretamente para o Sol.
La Rochefoucauld disse que «para o Sol e para a morte, não se olha de frente».
É belíssima a frase. É algo que eu sinto. De uma forma muito forte...Senti-o enquanto escrevia sobre a Shoá e senti-o ao escrever Até ao fim da Terra [ensombrado pela morte do filho, Uri Grossman, de 20 anos, abatido por um míssil do Hezbollah, em agosto de 2006, poucas horas antes do cessar-fogo entre Israel e o Líbano]. Há coisas para as quais não podemos olhar de frente porque nos cegam. ainda assim, porque sou escritor: não fugir à radiação ardente da Shoá ou de um luto pessoal....
O Escritor que escreve sobre a Shoá tem de aceitar que jamais será completamente compreendido pelos outros.
Concordo. E, no entanto, os dos, escritor e leitor, terão sido parceiros na tentativa humana de compreender algo. Não tentaram evitá-lo ou negá-lo. Assumiram esse fardo e toda a tristeza nele envolvida e tentaram olhar a Shoá nos olhos. Foi por isso que escolhi pôr Momik no início do livro, apesar de essa ter sido a última parte a ser escrita. Senti que precisava de captar o modo como uma crança tenta entender a Shoá. Porque, mesmo se formos adultos e tivermos lido todos os livros, visto todos os filmes, estudado todas as abordagens históricas, subsistirá sempre uma pequena parte de nós que, tal como acontece com as crianças, é incapaz de compreender.
Estamos dentro da radiação, mas não conseguimos dar-lhe uma forma?
Perante as perguntas principais, somos crianças indefesas, mesmo que sejamos adultos. Como é que alguém foi capaz de fazer uma coisa assim?
É inegável que pensar a Shoá é um fardo muito particular. Mas não acha que, num certo sentido, é também um ato que envolve algum masoquismo? Escarafunchar na tristeza e no horror, como se sofrêssemos de uma espécie de síndroma do sobrevivente (Elie Wiesel disse: «Estou vivo, logo sou culpado») Quanto mais percebemos que não conseguimos compreender, mais obcecados ficamos.
É verdade. Haverá sempre quem explore esse lado masoquista...Pode-se abusas de tudo, e também da Shoá. Mas...[Silêncio longo.] não há «mas»! Penso que existem três formas de tentar superar este fardo. Uma, é a via científica: procurar compreender como aconteceu. A outra é a das memórias dos nossos sobreviventes. A terceira é a via da arte. Ora, haverá cada vez menos sobreviventes e a via científica extinguir-se-á em breve (são conhecidos praticamente todos os factos que havia para conhecer). A expressão art´stca será a principal forma de gerar empatas nas gerações futuras em relação à Shoá. (pp. 70-71)

"Revsta Ler", Outono 2015, Nº 139

quarta-feira, 9 de março de 2016

Estreia: Hannah Arendt

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Título Original: Hannah Arendt
Com: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Ulrich Noethen, Michael Degen, Victoria Trauttmansdorff, Klaus Pohl, Nicholas Woodeson
Realização: Margarethe von Trotta
Produção: Bettina Brokemper, Johannes Rexin
Autoria: Pamela Katz, Margarethe von Trotta
Ano: 2013
Duração: 109 minutos