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domingo, 19 de junho de 2016
sábado, 18 de junho de 2016
«Chanson pour oublier Dachau» de Louis Aragon
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| Louis Aragon |
« Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs
Il n’y aura pas à courir les pieds nus dans la neige
Il ne faudra pas se tenir les poings sur les hanches
jusqu’au matin
Ni marquer le pas le genou plié devant un
gymnasiarque dément
Les femmes de quatre-vingt-trois ans
les cardiaques ceux qui justement
Ont la fièvre ou des douleurs articulaires
ou Je ne sais pas moi les tuberculeux
N’écouteront pas les pas dans l’ombre qui
s’approchent
Regardant leurs doigts déjà qui s’en vont en fumée
Nul ne réveillera cette nuit les dormeurs
Ton corps
Ton corps n’est plus le chien qui rôde et qui ramasse
Dans l’ordure ce qui peut lui faire un repas
Ton corps n’est plus le chien qui saute sous le fouet
Ton corps n’est plus cette dérive aux eaux d’Europe
Ton corps n’est plus cette stagnation cette rancoeur
Ton corps n’est plus la promiscuité des autres
N’est plus sa propre puanteur
Homme ou femme tu dors dans des linges lavés
Quand tes yeux sont fermés quelles sont les images
Qui repassent au fond de leur obscur écrin
Quelle chasse est ouverte et quel monstre marin
Fuit devant les harpons d’un souvenir sauvage
Quand tes yeux sont fermés revois-tu revoit-on
Mourir aurait été si doux à l’instant même
Dans l’épouvante où l’équilibre est stratagème
Le cadavre debout dans l’ombre du wagon
Quand tes yeux sont fermés quel charançon les
ronge
Quand tes yeux sont fermés les loups font-ils le beau
Quand tes yeux sont fermés ainsi que des tombeaux
Sur des morts sans suaire en l’absence des songes
Tes yeux
Homme ou femme retour d’enfer
Familiers d’autres crépuscules
Le goût de soufre aux lèvres gâtant le pain frais
Les réflexes démesurés à la quiétude villageoise de
la vie
Comparant tout sans le vouloir à la torture
Déshabitués de tout
Hommes et femmes inhabiles à ce semblant de bonheur revenu
Les mains timides aux têtes d’enfants
Le cœur étonné de battre
Leurs yeux
Derrière leurs yeux pourtant cette histoire
Cette conscience de l’abîme
Et l’abîme
Où c’est trop d’une fois pour l’homme être tombé
Il y a dans ce monde nouveau tant de gens
Pour qui plus jamais ne sera naturelle la douceur
Il y a dans ce monde ancien tant et tant de gens
Pour qui toute douceur est désormais étrange
Il y a dans ce monde ancien et nouveau tant de gens
Que leurs propres enfants ne pourront pas
comprendre
Oh vous qui passez
quarta-feira, 30 de março de 2016
Wisława Szymborska (1923-2012)
A MÃO
Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever ‘Mein Kampf’
ou ‘A Casinha do Ursinho Puff’.
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever ‘Mein Kampf’
ou ‘A Casinha do Ursinho Puff’.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Sobre «O Universo Concentracionário» de David Rousset
por José Marmeleira em " Um dos primeiros testemunhos do terror nazi", Ípsilon/Público, 25 Março 2016
Um dos primeiros testemunhos do terror nazi, O Universo Concentracionário, de David Rousset ( !912-1997), conclui-se com um aviso. Escreve o autor francês (112): " A sociedade alemã, quer devido à sua estrutura económica quer à dureza da crise que a arruinou, conheceu uma decomposição ainda excepcional na actual conjuntura do mundo. Mas seria fácil mostrar que os traços mais característicos, não só da mentalidade S.S. como também dos alicerces sociais, se encontram em muitos outros sectores da sociedade mundial. (...) Seria um logro, e criminoso, pretender que é impossível aos outros povos fazerem experiência semelhante por terem uma natureza diferente ". Este é um homem em sobreaviso. Nada garante que o que aconteceu permaneça para uma excepção ou irrepetível. Nada.
Ditado por Rousset a mulher em 1945, o ano da sua libertação do Campo Wöbbelin (Norte da Alemanha), o Universo Concentracionário pretende ser uma descrição objectiva [...]
David Rousset começa por descrever, dum ponto de vista cimeiro, uma mescla de corpos e máquinas, terra e morte. O olhar descerá, depois, sobre os cadáveres e torpedos que se confundem com as imundícies, os ventres gelados que os gritos e as pancadas sacodem.
Buchenwald, onde foi encerrado em 1943, é uma cidade isolada que "vive sob o signo de um enorme humor, de uma palhaçada trágica". Chegados à cidade, os detidos saltam dos vagões, como "bonecos de corda partida", "cegos de golpes", "pegajosos de medo". Arrastam-se pelos corredores kafkianos e seguem para os barracões onde, despidos de tudo, serão vacinados sob rajadas de vento. [...]
Os campos que o autor conheceu (Buchenwald, Neuengamme, Porta Westfalica, Wöbbelin) não eram de extermínio, mas entre eles e Auschwitz a diferença era de grau, não de natureza. Em todos se enforcavam homens. A entrada no universo concentracionário já se fez. Aqui vigoram as leis da vida biológica, a competição encarniçada pela sobrevivência. As idades, as profissões, as posições sociais, as biografias desfazem-se lentamente. "O velho é um objecto de escárnio e de desprezo, por causa da fraqueza. A única coisa que conta é o poder" (p. 46) [...]
Mas seria indigno de Universo Concentracionário (fonte incontornável de As Origens do Totalitarismo, De Hannah Arendt), concluir este texto sem lembrar a insistência dos detidos políticos em falar e conversar, apesar das ameaças, e as palavras que Rouusset dedica aos que permanecem firmes. Erich, Emil, Kurt, que nunca bateram em ninguém, Walter, que continuou sensível, Ernest, simpático, que manteve uma vida sã, normal. Todos mantiveram incólume a sua dignidade naquele inferno.
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| David Rousset (no centro da foto, de óculos) |
sexta-feira, 11 de março de 2016
Wiesel & Adelsberger: a fome
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| Eli Wiesel em 1943 (com 15 anos) |
Elie
Wiesel, Noite, Texto Editora, Porto,
2003, p. 60 (livro disponível na biblioteca da escola, na estante "Estudos do Holocausto/Shoá")
Memórias
da Dra. Lucie Adelsberger
«Aquele que conheceu a fome sabe que não
se trata apenas de uma sensação animal, mas sim de um suplício que põe os
nervos em franja, de uma agressão contra a totalidade da pessoa. A fome torna
as pessoas más e altera o carácter. Muitas coisas quando observadas do exterior
parecem, a todos os títulos, monstruosas; mas quando relativas aos detidos
tornam-se compreensíveis, e até desculpáveis, se forem vistas à luz da fome.»
Citado
em Lecomte, p. 125, Ensinar o Holocausto
no Século XXI, Via Occidentallis, 2007 (livro disponível na biblioteca da escola, na estante "Estudos do Holocausto/Shoá")
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| "Terezín", foto de D. Blaufuks |
quinta-feira, 10 de março de 2016
Helen Lewis
Ainda antes de 1942, os judeus foram obrigados
a entregar às autoridades não apenas os aparelhos de rádio, como as suas jóias,
pratas, peles e tudo quanto tivesse valor. Que mais haveria ainda para lhes
tirar? Por incrível que pareça a resposta é «os animais de estimação», esses
pequenos e inocentes amigos que tantas vezes são a única alegria que nos resta
num mundo envolto em trevas. Para alguns, em especial para as crianças e
velhos, foi este o golpe mais duro. No dia aprazado, lá iam eles nos eléctricos,
os rostos brancos, a tentar sufocar as lágrimas, agarrados aos pequenos volumes
que deviam entregar nos centros de recepção: porquinhos-da-índia, hamsters, ratinhos
brancos, tartarugas e, claro está, gaiolas com pássaros. Os mais difíceis eram
os cães e os gatos, que gritavam durante todo o percurso, como se soubessem. O
pai de Paul, um cavalheiro alto, tranquilo e sempre muito digno, foi obrigado a
entregar Pepicek, o canário de que tanto gostava. Nessa noite
parecia mais pequeno, mais enrugado e desamparado. (pp. 46-47)
Tempo para Falar, Planeta, 2013
David Grossman entrevistado por Filipa Melo
Quando acabei de reler Ver: Amor, fiquei a pensar num paradoxo: o realismo não é suficiente quando se escreve sobre situações extremas. Passou-se assim com a literatura sobre a Shoá. Após a primeira geração de escritores-testemunhas, as gerações seguintes tiveram de recorrer à imaginação, para colorir as primeiras imagens a preto e branco.
Não creio que colorir seja um bom termo. Em Ver:Amor, usei o realismo mágico,
não para colorir, mas para analisar a situação sob outro ponto de vista. O romance corresponde a quatro tentativas muito diferentes de escrever sobre a Shoá: do realismo de Momik à corrente de consciência e realismo mágico de Bruno, ao registo quase teatral da relação entre Wasserman e Niegel e, no final, ao estilo enciclopédico ou semicientífico. Havia uma quinta parte, da qual desisti, porque senti que quatro eram suficientes para mostrar a impossibilidade de escrever sobre a Shoá. Sabemos que vamos falhar, mas temos de continuar a tentar. Por vezes, penso que olhar para a Shoá assemelha-se a olhar diretamente para o Sol.
La Rochefoucauld disse que «para o Sol e para a morte, não se olha de frente».
É belíssima a frase. É algo que eu sinto. De uma forma muito forte...Senti-o enquanto escrevia sobre a Shoá e senti-o ao escrever Até ao fim da Terra [ensombrado pela morte do filho, Uri Grossman, de 20 anos, abatido por um míssil do Hezbollah, em agosto de 2006, poucas horas antes do cessar-fogo entre Israel e o Líbano]. Há coisas para as quais não podemos olhar de frente porque nos cegam. ainda assim, porque sou escritor: não fugir à radiação ardente da Shoá ou de um luto pessoal....
O Escritor que escreve sobre a Shoá tem de aceitar que jamais será completamente compreendido pelos outros.
Concordo. E, no entanto, os dos, escritor e leitor, terão sido parceiros na tentativa humana de compreender algo. Não tentaram evitá-lo ou negá-lo. Assumiram esse fardo e toda a tristeza nele envolvida e tentaram olhar a Shoá nos olhos. Foi por isso que escolhi pôr Momik no início do livro, apesar de essa ter sido a última parte a ser escrita. Senti que precisava de captar o modo como uma crança tenta entender a Shoá. Porque, mesmo se formos adultos e tivermos lido todos os livros, visto todos os filmes, estudado todas as abordagens históricas, subsistirá sempre uma pequena parte de nós que, tal como acontece com as crianças, é incapaz de compreender.
Estamos dentro da radiação, mas não conseguimos dar-lhe uma forma?
Perante as perguntas principais, somos crianças indefesas, mesmo que sejamos adultos. Como é que alguém foi capaz de fazer uma coisa assim?
É inegável que pensar a Shoá é um fardo muito particular. Mas não acha que, num certo sentido, é também um ato que envolve algum masoquismo? Escarafunchar na tristeza e no horror, como se sofrêssemos de uma espécie de síndroma do sobrevivente (Elie Wiesel disse: «Estou vivo, logo sou culpado») Quanto mais percebemos que não conseguimos compreender, mais obcecados ficamos.
É verdade. Haverá sempre quem explore esse lado masoquista...Pode-se abusas de tudo, e também da Shoá. Mas...[Silêncio longo.] não há «mas»! Penso que existem três formas de tentar superar este fardo. Uma, é a via científica: procurar compreender como aconteceu. A outra é a das memórias dos nossos sobreviventes. A terceira é a via da arte. Ora, haverá cada vez menos sobreviventes e a via científica extinguir-se-á em breve (são conhecidos praticamente todos os factos que havia para conhecer). A expressão art´stca será a principal forma de gerar empatas nas gerações futuras em relação à Shoá. (pp. 70-71)
Não creio que colorir seja um bom termo. Em Ver:Amor, usei o realismo mágico,
não para colorir, mas para analisar a situação sob outro ponto de vista. O romance corresponde a quatro tentativas muito diferentes de escrever sobre a Shoá: do realismo de Momik à corrente de consciência e realismo mágico de Bruno, ao registo quase teatral da relação entre Wasserman e Niegel e, no final, ao estilo enciclopédico ou semicientífico. Havia uma quinta parte, da qual desisti, porque senti que quatro eram suficientes para mostrar a impossibilidade de escrever sobre a Shoá. Sabemos que vamos falhar, mas temos de continuar a tentar. Por vezes, penso que olhar para a Shoá assemelha-se a olhar diretamente para o Sol.
La Rochefoucauld disse que «para o Sol e para a morte, não se olha de frente».
É belíssima a frase. É algo que eu sinto. De uma forma muito forte...Senti-o enquanto escrevia sobre a Shoá e senti-o ao escrever Até ao fim da Terra [ensombrado pela morte do filho, Uri Grossman, de 20 anos, abatido por um míssil do Hezbollah, em agosto de 2006, poucas horas antes do cessar-fogo entre Israel e o Líbano]. Há coisas para as quais não podemos olhar de frente porque nos cegam. ainda assim, porque sou escritor: não fugir à radiação ardente da Shoá ou de um luto pessoal....
O Escritor que escreve sobre a Shoá tem de aceitar que jamais será completamente compreendido pelos outros.
Concordo. E, no entanto, os dos, escritor e leitor, terão sido parceiros na tentativa humana de compreender algo. Não tentaram evitá-lo ou negá-lo. Assumiram esse fardo e toda a tristeza nele envolvida e tentaram olhar a Shoá nos olhos. Foi por isso que escolhi pôr Momik no início do livro, apesar de essa ter sido a última parte a ser escrita. Senti que precisava de captar o modo como uma crança tenta entender a Shoá. Porque, mesmo se formos adultos e tivermos lido todos os livros, visto todos os filmes, estudado todas as abordagens históricas, subsistirá sempre uma pequena parte de nós que, tal como acontece com as crianças, é incapaz de compreender.
Estamos dentro da radiação, mas não conseguimos dar-lhe uma forma?
Perante as perguntas principais, somos crianças indefesas, mesmo que sejamos adultos. Como é que alguém foi capaz de fazer uma coisa assim?
É inegável que pensar a Shoá é um fardo muito particular. Mas não acha que, num certo sentido, é também um ato que envolve algum masoquismo? Escarafunchar na tristeza e no horror, como se sofrêssemos de uma espécie de síndroma do sobrevivente (Elie Wiesel disse: «Estou vivo, logo sou culpado») Quanto mais percebemos que não conseguimos compreender, mais obcecados ficamos.
É verdade. Haverá sempre quem explore esse lado masoquista...Pode-se abusas de tudo, e também da Shoá. Mas...[Silêncio longo.] não há «mas»! Penso que existem três formas de tentar superar este fardo. Uma, é a via científica: procurar compreender como aconteceu. A outra é a das memórias dos nossos sobreviventes. A terceira é a via da arte. Ora, haverá cada vez menos sobreviventes e a via científica extinguir-se-á em breve (são conhecidos praticamente todos os factos que havia para conhecer). A expressão art´stca será a principal forma de gerar empatas nas gerações futuras em relação à Shoá. (pp. 70-71)
"Revsta Ler", Outono 2015, Nº 139
Etiquetas:
'o dever da memória',
literatura do Holocausto/Shoá
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