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| Hannah Arendt |
Todavia, existe uma outra tradição e um outro vocabulário não menos antigos nem menos consagrados pelo tempo. Quando a cidade-estado ateniense chamava à sua constituição uma isonomia, ou quando os romanos falavam da civitas como sendo a sua forma de governo, pensavam numa conceção do poder e da lei cuja essência não assentava na relação de comando-obediência, do mesmo modo que não identificavam o poder com a dominação, nem a lei com o comando. Foi para estes exemplos que os homens das revoluções do século XVIII se voltaram, pesquisando os arquivos da Antiguidade e constituindo uma forma de governo, uma república, na qual o primado da lei, assente no poder, poria fim à dominação do homem sobre o homem, concebida por eles como um «governo para escravos». Também eles, infelizmente, continuaram a falar de obediência - obediência às leis em vez de obediência aos homens; mas o que entendiam pelo termo era a adesão às leis às quais os cidadãos tivessem dado o seu consentimento. A adesão nunca é inquestionável, e no que se refere à sua garantia, esta não coincide com a "obediência inquestionável" que um ato de violência pode impor - esse tipo de obediência com que o criminoso pode contar quando me rouba a carteira tendo uma faca por arma, ou assalta um banco com uma arma de fogo na mão. É a adesão do povo que confere poder às instituições de um país, e esta adesão não é mais do que a continuação do consentimento que foi de início a origem das leis. Sob as condições de um governo representativo, considera-se que o povo comanda aqueles que o governam.» (pp. 45-46)
Hannah Arendt, Sobre a Violência, Relógio D' Água, 2014
(em breve na Biblioteca da Escola)














