quarta-feira, 11 de maio de 2016

Obediência vs. Adesão

Hannah Arendt
«As descobertas muito recentes que se referem a um instinto inato de dominação e a um instinto de agressão inato no animal humano foram antecedidas por teses filosóficas muito semelhantes. Segundo John Stuart Mill, "a primeira lição de civilização [é] a da obediência", e Mill fala dos "dois estados das inclinações... um, o desejo de exercer o poder sobre os outros; outro ... a aversão a sofrer o exercício do poder sobre si próprio". Se nos ficássemos nas nossas próprias experiências sobre estas questões, saberíamos que o instinto de submissão, o desejo ardente de obedecer e de ser comandado por um homem forte, é pelo menos tão importante na psicologia humana como a vontade de poder, e, politicamente, talvez mais relevante. O velho adágio: "Quem sabe mandar, sabe obedecer", que, numa ou noutra versão, todos os séculos e todas as nações conheceram, talvez indique uma verdade psicológica: a saber, que a vontade de poder e a vontade de submissão estão ligadas uma à outra. "A pronta submissão à tirania", para citarmos de novo Mill, está muito longe de ter sempre como causa a "passividade extrema". Inversamente, uma relutância muito forte perante a obediência é muitas vezes acompanhada por uma relutância igualmente forte em comandar e dominar. Historicamente falando, a antiga instituição da economia da escravatura seria inexplicável nos termos da psicologia de Mill. O seu propósito explícito era libertar os cidadãos do fardo dos assuntos domésticos e permitir-lhes participar na vida pública da comunidade, na qual todos eram iguais; se fosse verdade que nada existe de mais gratificante do que comandar e dominar os outros, o dono da casa nunca teria saído dos seus domínios.
Todavia, existe uma outra tradição e um outro vocabulário não menos antigos nem menos consagrados pelo tempo. Quando a cidade-estado ateniense chamava à sua constituição uma isonomia, ou quando os romanos falavam da civitas como sendo a sua forma de governo, pensavam numa conceção do poder e da lei cuja essência não assentava na relação de comando-obediência, do mesmo modo que não identificavam o poder com a dominação, nem a lei com o comando. Foi para estes exemplos que os homens das revoluções do século XVIII se voltaram, pesquisando os arquivos da Antiguidade e constituindo uma forma de governo, uma república, na qual o primado da lei, assente no poder, poria fim à dominação do homem sobre o homem, concebida por eles como um «governo para escravos». Também eles, infelizmente, continuaram a falar de obediência - obediência às leis em vez de obediência aos homens; mas o que entendiam pelo termo era a adesão às leis às quais os cidadãos tivessem dado o seu consentimento. A adesão nunca é inquestionável, e no que se refere à sua garantia, esta não coincide com a "obediência inquestionável" que um ato de violência pode impor - esse tipo de obediência com que o criminoso pode contar quando me rouba a carteira tendo uma faca por arma, ou assalta um banco com uma arma de fogo na mão. É a adesão do povo que confere poder às instituições de um país, e esta adesão não é mais do que a continuação do consentimento que foi de início a origem das leis. Sob as condições de um governo representativo, considera-se que o povo comanda aqueles que o governam.» (pp. 45-46)



Hannah Arendt, Sobre a Violência, Relógio D' Água, 2014
(em breve na Biblioteca da Escola)

«Le chant des partisans», Interpretes: Les Stentors

sábado, 7 de maio de 2016

A iconoclastia de Helmut Herzfeld (1891-1968)


Helmut Herzfeld
Helmut Herzfeld estudou na Escola de Artes e Ofícios de Munique e é considerado, juntamente com George Grosz, um dos pioneiros da fotomontagem.
Entre 1917 e 1918 tomou várias decisões que marcariam decisivamente o curso da sua vida. Face à crescente anglofobia, que parecia estender-se por toda a Alemanha, decidiu adoptar um pseudónimo "britanizado", John Heartfield; filiou-se no Partido Comunista; tornou-se membro activo do dadaísmo.
Com a subida dos nazis ao poder, tornou-se num alvo a abater. Em Abril de 1933, fugiu pela janela quando os membros das SS lhe assaltaram a casa. Atravessando a pé os Sudetas, instalou-se na Checoslóváquia, mas perante a iminência da ocupação nazi, voltou a fugir, cinco anos passados, para Inglaterra.
Eis algumas das suas obras:
Sangue e ferro

E, no entanto, o mundo move-se
Hitler, o Super-homem, come ouro e cospe lixo
O rosto do Fascismo (Mussolini)
O Verdugo e a Justiça

Nunca mais!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Grácia Nasi

Contrariamente aos Reis Católicos que cumpriram o estipulado, D. Manuel não manteve a sua promessa de deixar sair de Portugal os judeus que o quisessem. A sua decisão, provavelmente já anterior à assinatura do decreto de expulsão, era outra: mantê-los no reino e aos seus «cabedais», não como judeus, mas sim como cristãos. Esperaria D. Manuel uma aceitação voluntária e massiva da conversão por parte dos judeus? Se assim era, enganou-se. Mas nada deteria o rei na sua decisão: numa sexta-feira, a 19 de Março de 1497, muito antes de findar o prazo para a saída, estipulado para Outubro, foi dada ordem de baptismo compulsivo de todas as crianças de quatro a catorze anos no domingo seguinte, dia de Páscoa judaica. Seguindo a táctica de atingir os pais através dos filhos, estes seriam retirados aos seus progenitores para serem educados na fé cristã.
As crianças foram assim arrancadas aos pais em verdadeiros cenários de horror: «Os pais, levados ao desespero, vagavam como dementes, as mães resistiam como leoas. Muitos preferiam matar os filhos com as próprias mãos; sufocavam-nos no último abraço ou atiravam-nos em poços ou rios, suicidando-se em seguida.» Condoídos, muitos cristãos escondiam crianças judias para poupar os pais a tal sofrimento. «Os próprios cristãos», escreve um autor anónimo, «movendo-os a piedade, e em face dos bramidos e choros que os tristes pais e amorosas mães faziam por aqueles pedaços das suas entranhas que, à força, viam arrancar deles sem esperança de mais poder lograr, escondiam e salvavam as crianças». Fernando Coutinho, líder do partido clerical que no Conselho Real se opusera à expulsão, e mais tarde bispo de Silves escreverá uns anos depois: « Vi com os meus próprios olhos como muitos foram arrastados pelos cabelos à pia baptismal, como um pai, com a cabeça encoberta, sob dores e lamentações, acompanhou o seu filho e, de joelhos, clamou ao Todo-Poderoso que fosse testemunha de pai e filho, unidos como professos da lei mosaica, desejarem morrer como mártires do judaísmo. Vi actos ainda mais pavorosos, verdadeiramente incríveis, que lhes foram infligidos.»
Mas o terror das conversões forçadas ainda não acabara. Com a aproximação da data limite para a saída, em Outubro de 1497, três portos, Lisboa, Porto e Algarve foram designados para o embarque. Mas no último momento o rei mudou de opinião, restringindo-o a Lisboa. Cerca de vinte mil judeus juntaram-se então na cidade, sendo conduzidos ao palácio dos Estatus, no Rossio, onde antes de serem alvo de um baptismo colectivo foram sujeitos a todo o tipo de pressões e ameaças. Abraão Saba, médico, que já fora expulso de Castela em 1492 e aquel levaram dois filhos, conta que foram mantidos, nos Estatus, sem comer nem beber durante quatro dias, e que os que conseguiram resistir foram arrastados «pelas barbas e cabelos» até às igrejas, enquanto outros se suicidavam atirando-se das janelas. (pp. 28-30)

Esther Mucznik, Grácia Nasi - A Judia Portuguesa do Século XVI Que Desafiou O Seu Próprio Destino,A Esfera dos Livros, 2010
(brevemente na Biblioteca da Escola)

«A Escolha de Sofia»

Sugerido aqui


Avrom Reisen

Avrom Reisen
Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)
Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.
Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.
Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.
Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.
Avrom Reisen
“Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס— forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.
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