terça-feira, 27 de outubro de 2015

«Requiem por Auschwitz» de Isabel Aguiar


São um requiem por Auschwitz os dedinhos de uma criança
trilhados na porta de um vagão.

Os mortos de Auschwitz
Pedem um requiem
Enquanto plantam flores ao longo dos caminhos.

A Cruz Vermelha comunicou a morte de Etty Hillesum a 15 de Setembro de 1943
O calendário mundial esburacou-se.

Não tiveram direito nem aos calhaus
Sobre a pedra do Túmulo
As mães mais sós do mundo
As mães que não vimos
E por isso falamos na sua vez.



Mães sem vida
Encalhadas as faces nos lugares impuros
Mães da desolação maior do mundo
A chorarem atrás dos muros com arame farpado
Farpas no meu coração.

Editora Licorne, 2014

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A Film Unfinished, Yael Hersonski, 2010



"A Film Unfinished" é um documentário, de 2010, realizado, por Yael Hersonski, a partir da descoberta das imagens não utilizadas num filme de propaganda nazi, sobre o gueto de Varsóvia.

Nelly Sachs (1891-1970)


(Leonie) Nelly Sachs, judia, nasceu em Berlim no dia 10 de Dezembro de 1891. Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1940, partiu com a mãe para a Suécia, refugiando-se em Estocolmo, onde viveu desde então. Aí tornou-se tradutora e uma escritora activista em prol de todo o seu povo que era assassinado pelo regime nazi. Em 1966, juntamente com Shmuel Agnon, recebeu o Prémio Nobel da Literatura. 

CORO DOS QUE SE SALVARAM

Nós que nos salvámos,
De cujos ossos ocos a Morte já cortava as suas flautas,
Em cujos tendões a Morte já passava o seu arco -
Os nossos corpos ainda gemem
Com a sua música mutilada.
Nós que nos salvámos,
Ainda pendem os baraços torcidos para os nossos pescoços
Em frente de nós no ar azul -
As ampulhetas ainda se enchem com o nosso sangue gotejante.
Nós que nos salvámos,
Ainda em nós roem os vermes do medo.
A nossa estrela está enterrada no pó.
Nós que nos salvámos
Vos pedimos:
Mostrai-nos devagar o vosso Sol.
Levai-nos a passo de estrela em estrela.
Deixai-nos aprender devagar de novo a vida.
De contrário poderia a canção dum pássaro,
O encher do balde no poço
Fazer rebentar a nossa dor mal selada
E arrastar-nos em espuma -
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão que morde -
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó -
Perante os vossos olhos em pó nos desfizéssemos.
O que é que aguenta ainda inteira a nossa teia?
Nós que nos tornámos sem hálito,
Cuja alma fugiu para Ele da meia-noite
Muito antes de nos terem salvado o corpo
Na arca do momento.
Nós que nos salvámos,
Apertamo-vos a mão,
Reconhecemos o vosso olhar -
Mas só e ainda nos aguenta a despedida,
A despedida no pó
Nos aguenta convosco.

(tradução de Paulo Quintela, in Poemas de Nelly Sachs, Portugália, 1967 - Poetas de Hoje - o original pertence ao seu primeiro livro In den Wohoungen des Todes / Nas Moradas da Morte, de 1946)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os homossexuais, as vítimas esquecidas do Holocausto

Para além dos judeus, alvo preferencial dos nazis, também foram vítimas deste regime outros grupos considerados como 'raças inferiores' ou 'parasitas', como é o caso dos ciganos, ou 'a-sociais', por exemplo, as prostitutas, as testemunhas de Jeová, os comunistas e restantes opositores ao regime, os homossexuais. Este último grupo é considerado o mais esquecido, tendo-lhe sido reconhecido o estatuto de vítimas, somente, décadas depois do fim da guerra.
Uma vez que se queria uma sociedade expurgada de toda a ameaça à suposta pureza da 'raça' germânica, foram os homossexuais alemães os principais visados pelo ódio e impulso de destruição nazi. Veja-se, abaixo transcrito, o discurso de Himmler (Quem é?), proferido a 18 de Fevereiro de 1937:

Se eu admitir que existem 1 ou 2 milhões de homossexuais, tal significará que 7%, 8% ou 10% dos homens são homossexuais. E, se a situação não for alterada, o nosso povo será destruído por essa doença contagiosa. A longo prazo, nenhum povo conseguiria resistir a tal perturbação da vida e do equilíbrio sexual [...] Um povo de raça pura que tenha poucas crianças é um povo que tem um pé na cova; dentro de 50 a 100 anos não terá qualquer significado e em duzentos a quinhentos anos extinguir-se-á [...] A homossexualidade reduz todos os resultados a zero e destrói qualquer sistema básico; destrói os próprios alicerces do Estado. Além disso, os homossexuais sofrem de uma doença mental. São fracos e cobardes em matérias fulcrais [...] Temos de compreender que, se este mal continuar a espalhar-se na Alemanha e se não formos capazes de o parar, acabará com a Alemanha. Será o fim do mundo germânico. (http://perso.wanadoo.fr/d-d.natanson)

No entanto, isso não significa que homossexuais de outros países, principalmente os anexados pela Alemanha, não tivessem sido perseguidos e deportados. Pierre Seel, originário da região francesa da Alsácia,  foi deportado, apenas com 17 anos, para o campo de Schirmeck, em resultado de uma denúncia de roubo de um relógio que o próprio fez à polícia. O facto do local do roubo estar identificado como zona de frequência homossexual, foi o suficiente para que Seel fosse incluído na lista de homossexuais. No livro que escreveu, Moi, Pierre Seel, deporté homosexuel, diz: "Nos campos, os homossexuais eram sujeitos às mesmas [relativamente aos outros prisioneiros] privações, brutalidade, trabalhos forçados e experiências médicas, mas o triângulo cor-de-rosa * que usavam, atraía o remoque e infligia sofrimentos ainda maiores. Por vezes eram atirados aos cães dos SS, que os despedaçavam em frente dos restantes detidos."
A maioria das experiências médicas a que eram submetidos consistia numa injecção de hormonas sintéticas ministrada na virilha direita com o suposto objectivo de curar a doença de que eram portadores: a homossexualidade. A consequência destas experiências pseudo-científicas era a morte de grande parte dos estrelas rosa.
Os mais novos eram vistos como mercadoria sexual para uso dos Kapos (Ver aqui) e dos prisioneiros criminosos, os que gozavam de maiores privilégios dentro dos campos. Jean-Michel Lecomte, no seu Ensinar o Holocausto no Século XXI, cita Aimé Spitz, deportado como preso político, mas também ele homossexual: "Um jovem alsaciano do departamento do Alto Reno era disputado por dois Kapos, todos os domingos, um deles dava-lhe uma tigela de sopa e outro um charuto. Em resultado do ciúme dos Kapos, foi enviado certa noite para a enfermaria para ser desinfectado; no dia seguinte foi encontrado morto. Tinham-lhe injectado petróleo nas veias. Tinha apenas 19 anos" (p. 81)


* À semelhança do que acontecia com os judeus, obrigados a usar uma estrela amarela
, também os homossexuais eram obrigados a usar uma estrela identificadora da sua condição de prisioneiros, a estrela cor-de-rosa.

Kapo

Kapo - deportado encarregue de dirigir uma equipa de trabalho nos campos de concentração. Normalmente, era escolhido entre os prisioneiros criminosos, os que mostravam índices de maior resistência e brutalidade, mas nada obstava a que fosse um judeu

domingo, 11 de outubro de 2015

"Contra o Esquecimento" ("Gegen das Vergessen")

"Contra o esquecimento" , "Gegen das Vergessen", é um projecto do fótografo e cineasta Luigi Toscano que integra na sua equipa: a historiadora de arte e gestora cultural Julia Teek e o designer de comunicação Holger Lehman.
Percorrendo cidades como Haifa, Kiev, Moscovo e Washington, o objectivo deste projecto consiste em fotografar vários sobreviventes da perseguição nazi. Cifra-se em milhões o número de vítimas deste regime, mas como diz Helga Weiss no prefácio do seu próprio Diário*, nos números, que aparecem no ecrã de qualquer computador com um simples clique, oculta-se um destino humano, uma história que é preciso descobrir, contar, para não esquecer.




* Livro existente na biblioteca: