Yehuda Bauer, Retthinking the Holocaust, Trad. Luís Filipe Bettencourt,Yale U.P., 2001, p. 262
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quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Yehuda Bauer
Teremos aprendido alguma coisa? As pessoas raramente aprendem a partir da história e a história do regime Nazi não constitui excepção. Também falhámos na compreensão do contexto geral. Nas nossas escolas falamos, por exemplo, de Napoleão e do modo como venceu a batalha de Austerlitz. Ganhou-a por si só? Alguém o terá ajudado nesse feito? Talvez uns tantos milhares de soldados? E o que aconteceu às famílias dos soldados mortos, aos feridos de ambos os lados, aos habitantes das cidades que foram destruídas, às mulheres que foram violadas, aos bens e posses que foram saqueados? Continuamos a ensinar acerca dos generais, acerca dos políticos e dos filósofos. Tentamos não reconhecer o lado negro da história - os assassínios em massa, a agonia, o sofrimento que, vindo de toda a história, nos esbofeteia. Não ouvimos o lamento de Clio. Continuamos a não compreender que nunca seremos capazes de lutar contra a nossa tendência para a aniquilação recíproca se não a estudarmos e a ensinarmos e se não enfrentarmos o facto de que os humanos são os únicos mamíferos capazes de aniquilar a sua própria espécie.
José Gil
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É quase obsceno falar de Auschwitz quando não se esteve lá. Não é sobre Auschwitz que escrevo, mas sobre o que nos diz Primo Levi. O que ali se passou compromete a humanidade inteira. Não sabemos como. Mas sabemos que se os fundamentalistas islâmicos e os negacionistas de toda a espécie recusam admitir a existência do Holocausto, é porque sentem que ele ultrapassou os limites do mal humano, do avesso da lei moral e do crime habitual entre os homens. E que abalou os alicerces de todas as normas éticas conhecidas - não as transgredindo apenas, mas tirando-lhes o fundamento que se julgava garantir solidamente os comportamentos morais dos homens.
Mais do que qualquer argumento, o Holocausto atirou por terra o imperativo categórico de Kant, a moral cristã ou a doutrina dos Direitos do Homem.
O que Primo Levi viveu e nos conta, a máquina de terror e morte sem sentido, a organização concentracionária que visava deliberadamente uma imensa produção de sofrimento gratuito, a humilhação tão excessiva e destruidora a que era submetido o prisioneiro que lhe retirava o poder de se dizer «um homem» - transformando-o numa sub-humanidade a que nós, ainda hoje, não sabemos dar um nome -, tudo isso põe em questão o nosso próprio estatuto de humanos, hoje.
José Gil «O sinal da História», Visão, 15 de Ab
ril de 2010
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